Entrevista VOGUE Türkiye entrevista Bronx

VOGUE: Olá Bronx, é um prazer ter você conosco para falar sobre seu novo álbum "PANDEMONIUM", mas antes de tudo, como você está se sentindo hoje?

BRONX: Olá VOGUE, eu estou muito bem, aproveitando os últimos dias do ano para ajeitar umas coisas antes de ir viajar e passar essa temporada de festas com minha família em algum lugar que eu não vou contar pra não ter paparazzis seguindo meus passos (risos).

VOGUE: A primeira pergunta é inevitável: o que o título “PANDEMONIUM” representa para você e como isso se conecta ao caos interno que você compartilhou conosco?

BRONX: Esse título surgiu logo no começo de tudo, na época em que estava fazendo o primeiro single, que foi MEGALOMANIA, e representa todo o caos que eu estava passando naquele momento, coisas que eu estava vendo e também acabava por me colocar dentro, sempre fui muito impulsivo, sempre fui de falar primeiro e depois pensar, então esse "caos" é tudo isso, minha impulsividade, meu imediatismo, meus medos também, é uma mistura de tudo que há de estranho em mim, coisas que por muito tempo não sabia lidar e que ainda estou aprendendo e isso que me faz conectar com ele, porque todos nós passamos por isso, somos humanos, estamos aprendendo, errando, acertando todos os dias.

VOGUE: O álbum aborda temas como medo, fracasso, pesadelos e inseguranças. Você pode nos contar como essas experiências pessoais moldaram a criação de “PANDEMONIUM” e o que você espera que os ouvintes sintam ao explorar esse caos ao seu lado?

BRONX: Porque eu queria me curar e eu precisava colocar pra fora tudo isso, não foi fácil porque detesto mostrar vulnerabilidade, mas entendi que a gente só cura algumas feridas se a gente expõe e enfrente elas cara a cara, então abrir meu album com "MAN" que é hiper forte, por exemplo, foi um desafio muito grande. Colocar todo meu ódio em "PISS" por exemplo, essa faixa comecei em Dezembro de 2022, deixei ela guardada por um bom tempo, porque mexia muito comigo, fui terminar pouco tempo antes do álbum sair e foi ótimo porque literalmente enterrei aquele pesadelo. Outra faixa que demorei a terminar porque é extremamente pessoal foi "SHOOTING STAR", porque meu jeito me fez afastar uma pessoa muito importante pra mim num período e meu jeito de pedir perdão foi escrevendo a música. Foi um período bem intenso, mas eu me orgulho disso, amadureci muito. E olha, quando o álbum saiu, ele meio que se tornou algo muito grande porque sempre tinha alguém se conectando com alguma faixa, isso me deixou muito feliz, então se algo fez a diferença na vida de alguém, que eu sei que fez, eu já cumpri meu papel.



VOGUE: A ideia de confrontar o seu “segundo eu” é fascinante. Como esse processo de autoconfrontação e aceitação influenciou as letras do álbum?

BRONX: Porque eu precisava me limpar todo pra seguir em frente e fechar muitos capítulos em aberto na minha vida. Esse álbum me fez entender muita coisa em mim, ainda to longe de ser perfeito e nem quero ser, erro pra caralho todos os dias, mas ele me ajudou muito a ter mais coragem de me expor, também de entender meu valor e procurar por exemplo me descontruir de muita coisa que eu achava que não precisava, como disse acima, amadurecimento. Eu estava num momento de "agora ou nunca" e se eu tivesse optado pelo "nunca", eu teria falhado feio, acho que seria insuportável de se conviver comigo.

VOGUE: Em termos líricos, houve alguma experimentação notável neste álbum em comparação com seus projetos anteriores? Como você descreveria a evolução sonora de “PANDEMONIUM” para o “PROCEED”?

BRONX: Eu amadureci bastante como compositor, mesmo mantendo fiel a minha forma de escrever, que é uma marca registrada, que trago comigo desde o começo, por exemplo, você pega uma música minha e você sabe que ela foi escrita por mim, tem meus trejeitos ali, da pra entender? mas o PROCEED é um álbum que eu fiz pra agradar a todos, menos a mim, essa é a diferença. Eu lotei ele de feats com pessoas importantes e pessoas que na época eram meus amigos, pra mim era uma "grande festa", mas o que acontece quando a festa acaba? você fica sozinho pra limpar toda a bagunça. Tipo, ali eu tenho uma composição com Leonardo Davi (???), porque merdas eu fiz isso? Não é 100% eu, odeio compor junto com outras pessoas porque não torna o trabalho autentico, ainda mais eu que sempre fui original desde o começo da minha carreira, entre trancos e barrancos.

VOGUE: O que o Bronx do “PANDEMONIUM” diria ao Bronx do “Enjoy The Ride”?

BRONX: Você é foda! Confia e segue, só segue e faz o que você tem de fazer.



VOGUE: O hip-hop, historicamente, tem sido frequentemente associado a uma imagem mais robusta e assertiva. Como você acredita que a vulnerabilidade expressa em “PANDEMONIUM” desafia ou amplia as expectativas tradicionais do gênero?

BRONX: O hip hop é um gênero que não é só ostentação ou putaria, é um gênero que permite você contar sua história de forma agressiva sem ser julgado por isso, ele abraça e te permite ser quem você é, isso que é a beleza do rap porque ele viaja por tantas vertentes e ainda assim sempre será autêntico. Eu não fui o único rapper a mostrar isso, todos nós já fizemos, pega o Poem da J.Olly, o Divine da Teyana, o último álbum da Kiiara que ela fez pra um amigo que faleceu, cada um de sua forma e suas perspectivas, suas vivências, o hip hop sempre permitiu isso, não é algo novo, não é uma barreira que eu quebrei. Meu desafio interno foi mostrar minha vulnerabilidade, algo que nunca gostei, mas eu consegui, fiz pra não precisar mais escrever temas assim.

VOGUE: Você mencionou que “ASTROBOY” é uma das suas favoritas do álbum. Você pode compartilhar conosco o que torna essa música especial para você e como ela se destaca das outras faixas?

BRONX: Olha, essa faixa é uma das minhas favoritas de todas que já escrevi, porque ela fala sobre solitude e você se sentir bem sozinho. Veja bem, solitude é diferente de solidão. Eu sempre lidei muito bem em estar sozinho, fazer as coisas sozinho, até prefiro em muitos casos e isso aprendi com o tempo, porque eu fui uma criança muito dependente de pessoas, odiava ficar sozinho, morria de medo de ter de lidar com qualquer situação sozinho, sempre chamava alguém, então essa faixa eu escrevi pra mim mesmo e eu sei que essa criança em algum lugar está acolhida, o ASTROBOY é ela, sei que está brincando feliz por aí (risos).

VOGUE: É incrível saber que você se arriscou na produção visual do álbum. Como você avalia seu trabalho em “PANDEMONIUM”? Você pretende se arriscar na produção novamente no futuro?

BRONX: Olha, os bastidores do processo visual foi insuportável porque nada estava dando certo, mas eu sabia o que eu queria, mas não conseguia expressar isso pra sair como eu queria e trabalhar comigo é complicado porque eu dou pitaco em tudo, ainda mais pra um trabalho grande. Eu quando achei o trabalho do Dan Witz, eu consegui ver que era tudo o que eu buscava, porque ele representava tudo o que estava passando dentro de mim, é muito doido isso, então eu tomei a frente, o Kaleb Woodbane me ajudou muito, eu jamais conseguiria sem ele, mas a Penelope também me ajudou, ela quase foi a produtora do álbum, mas sei que eu enchi a cabeça dela de coisas e ela também se sufocou, no final, só eu podia faze-lo, então foi nos 45 do último tempo e deu tudo certo. Sobre me arriscar no futuro... Não sei, sou preguiçoso, então não posso prometer nada, eu gostei de fazer, mas não amei o processo, sabe? não acho que eu tenha o dom, ali foi uma necessidade mesmo.



VOGUE: O processo de fazer as pazes com as vozes interiores e os “monstros debaixo da cama” é uma metáfora poderosa. Como você traduziu isso nos elementos visuais do álbum?

BRONX: Cada imagem foi pensada pra estar ali onde está no encarte. Quando encontrei a obra do Dan e vi o quanto tudo dele me representava foi fascinante. Tudo tomou forma dali, eu acho que é algo do destino, acredito nessas coisas, eu estava do nada, olhando coisas que nada tinham a ver com o álbum e encontrei, tudo foi se encaixando.

VOGUE: Você diria que o álbum que saiu é parecido com aquele que você idealizou no início da produção? Conte-nos um pouco sobre as mudanças na tracklist e nas escolhas dos singles.

BRONX: Olha, eu acho que ele se intensificou depois do final do ano passado, porque até então ele não seria assim tão profundo, ele seria um álbum com temas mais atuais, vide WHITE COLLARS, mas passei pelo momento mais difícil da minha carreira e precisei repensar muitas coisas, porque eu estava magoado, decepcionado e muito irritado e também muito emotivo, foram meses assim, mas nunca sou de mostrar isso publicamente, mas meus amigos mais próximos viram como eu estava definhando e daí como a gente cura isso? Compondo, minha resposta pra tudo sempre foi a música, que é onde eu sou bom e o que sei fazer de melhor. Não tinha como esse álbum ser diferente.

BRONX: Não mostrei a ninguém da gravadora o álbum até ele estar pronto. Bhermes e Naomi acompanharam o processo todo, tive muito apoio deles. Muito mesmo e sou eternamente grato. Naomi leu músicas que não entraram no álbum e que jamais vou compartilhar porque escrevi em momentos ou de raiva ou de tristeza. Bhermes nunca me deixou cair. A Penelope na época que ainda estava na gravadora também me ajudou e me encorajou muito nesse projeto, muito devo a ela, porque eu acho que foi uma das pessoas que me ajudaram a compreender o que eu precisava naquele momento e não fugir disso. Então quando o álbum estava pronto fiz uma Listening Party com outras pessoas de lá e o feedback foi ótimo, aliás, sempre tive total liberdade pra fazer o que eu queria e como queria e sempre tive muito apoio com isso lá. Mais uma vez, só tenho o que agradecer.

VOGUE: Você é um dos artistas mais bem sucedidos, premiados e aclamados da indústria, como é sua relação com esses aspectos hoje em dia? Como você lida com as críticas?

BRONX: Lido muito bem, amo o sucesso e ele me ama, temos um casamento perfeito de muito amor, sexo quente e muita parceria. Quanto a críticas, bom, eu tive muita aclamação esse ano e eu fiquei mal acostumado (risos). É impossível não mexer com o ego, isso aconteceria com qualquer um, sem hipocrisia. Na reta final quando eu recebi um "85", isso mexeu no ego, mas estamos na chuva e é pra se molhar né? serviu pra eu colocar os pés no chão, me senti intocável sim com todos aqueles "100", "98", não tenho vergonha de reconhecer isso, acho que me exaltei a toa, mas também sei que quando a gente ama nosso trabalho a gente meio que vira aquele pai super protetor, saca? aquela mãe ultra controladora. Pois é, mas tudo é aprendizado.

VOGUE: Agora que o álbum foi lançado, qual é o próximo capítulo para você como artista? Há planos para turnês, colaborações ou novos projetos que você possa compartilhar com seus fãs?

BRONX: A turnê tá vindo aí com a Aleesa me apoiando, e vem muita colaboração no futuro sim, umas com artistas que nunca trabalhei antes, então quem gosta de mim vai me ver muito por aí e quem não gosta sinto muito, vai me ver bastante também. Não penso em parar por agora, tenho muita coisa que quero fazer, muitas ideias, inclusive do meu novo álbum, ainda bem no começo de tudo e vai demorar muito a sair, mas tenho umas ideias bem doidas ai.

VOGUE: Por fim, como você define o impacto que deseja que o álbum tenha na vida dos ouvintes?

BRONX: Se alguém ali se identificou com alguma coisa, então eu já cumpri meu papel. Fiz a lição de casa direitinho.




Publicado em 30/12/2023 por VOGUE.

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