Entrevista COVER STORY: Inside Hurrance Evans’ Darkest Reinvention

A visionária do pop mergulha no caos, no excesso e na libertação com “Dancing Plague”, sua era mais radical até agora.

Fotografias por Marion LaShae

Há artistas que se reinventam; e há artistas que encaram a reinvenção como um campo de batalha. Hurrance Evans está definitivamente no segundo grupo. Depois de anos afastada e de um comeback que o público ainda tenta decifrar, ela retorna com Dancing Plague, um ritual elétrico que mistura suor, febre, techno europeu e um imaginário histórico tão estranho quanto hipnótico. É a entrada de um labirinto sonoro onde a imperfeição é escolha estética, o êxtase é método e a instabilidade, quase um estado espiritual.

Conversamos com Evans em um raro intervalo entre o estúdio e a noite berlinense que tem abastecido sua nova fase. De fala calma, mas cheia de imagens que parecem prestes a explodir, ela descreve sua era atual como um encontro entre catarse e colapso, um corpo que não consegue parar. Se Velvet Reveries era polido, etéreo e construído com luvas, Dancing Plague é o oposto: uma obra que abraça o feio, o urgente, o exagerado, e que encontra beleza justamente aí.

Nesta entrevista exclusiva de capa, Evans fala sobre transformar a Praga da Dança de 1518 em um reflexo de si, sobre assumir a imperfeição como força e sobre o motivo de ter abandonado o pop confortável para mergulhar em um universo industrial, ritualístico e visceral. Em um momento de transparência rara, ela admite que ainda tenta descobrir como existir longe da própria cobrança, e talvez seja justamente essa vulnerabilidade que torna sua nova era tão magnética.

Se Dancing Plague é a porta, o resto do álbum é o labirinto. E Hurrance Evans parece finalmente disposta a se perder dentro dele.



RS: Hurrance, antes de mais nada, obrigada por nos receber. Dancing Plague abre sua nova era com um delírio coletivo, gente dançando até cair no chão. O que exatamente você estava tentando convocar aqui: uma catarse, um aviso, um prelúdio ou só o prazer de ver o caos organizado em batidas?

HE: Eu quem agradeço o convite. Acho que é um pouco de tudo. Dancing Plague nasceu dessa imagem de um corpo que não consegue parar, algo entre catarse, colapso e compulsão. Não pensei como um aviso, mas como um estado, aquele momento em que você se entrega, deixando algo maior te guiar. É caótico, mas também é organizado, porque existe intenção ali. É sobre permitir que o delírio seja uma forma de libertação.


RS: Tem algo fascinante no fato de você transformar a Praga de 1518 em música industrial. Em que momento a história deixou de ser referência e virou reflexo do que você mesma estava vivendo?

HE: Eu sempre quis escrever sobre a Praga da Dança. Tenho esse título guardado desde o fim da era The Playwright, mas naquela fase eu precisava falar de outras coisas. Só agora senti que fazia sentido retomá-lo. A história nunca foi só uma curiosidade histórica para mim, ela virou reflexo de uma fase em que eu mesma me sentia consumida por excesso: de trabalho, de expectativas, de movimento. Então a referência deixou de ser tema e se tornou espelho.



RS: Velvet Reveries era todo polido, quase diáfano. Dancing Plague é suor, corpo, febre. Essa virada é consequência natural ou uma resposta às expectativas que construíram para você depois do último álbum?

HE: A virada é natural e também é reação. Meus dois últimos discos são mais contidos, mais delicados, e eu já desejava explorar um lado mais denso. Dancing Plague é resultado disso. Eu queria um álbum que não se escondesse atrás do polimento, que lidasse com aquilo que é feio, urgente, exagerado.


RS: O visual do single parece propositalmente instável, quase sujo, como se tivesse sido arrancado de um sonho ruim depois de uma rave. Quanto disso é estética e quanto disso é você dizendo que também há espaço para imperfeição na arte?

HE: A estética do single assume a imperfeição como valor. O visual é instável porque eu também estou falando de instabilidade. A imperfeição pode ser uma escolha estética, e eu queria que isso aparecesse na superfície da imagem.


RS: Você brinca com espiritualidade, decadência e êxtase como se estivesse equilibrando três bombas-relógio. Alguma vez te preocupou que uma música com essa intensidade pudesse ser mal interpretada ou até romantizar estados limites?

HE: Nunca me preocupei com mal-entendidos, mas tenho consciência de que lido com temas sensíveis. Espiritualidade, decadência, êxtase, tudo isso pode explodir na mão de um artista. Mas eu nunca uso esses temas como decoração. Mesmo quando provoco, há sempre algo humano por trás. Dancing Plague nasceu de um lugar honesto, não de uma vontade de romantizar o extremo.

RS: Você citou Berlim e o techno europeu como inspirações. Queria entender melhor: qual foi o momento em que você sentiu que precisava mergulhar nesse tipo de som e não em um pop mais confortável para o seu público?

HE: Foi uma soma de coisas, mas acho que começou quando eu comecei a viver a noite. De repente eu estava cercada por essa energia crua da cidade grande, então percebi que era isso que eu queria explorar naquele momento. O pop mais seguro não traduziria o que eu estava vivendo. É como se o techno tivesse me dado um vocabulário novo.


RS: Depois de tantos anos longe e depois de um comeback tão elogiado, você ainda sente que precisa provar alguma coisa ou já está no estágio em que compõe só para satisfazer a própria curiosidade?

HE: Eu sempre componho para satisfazer minhas curiosidades, mas ainda sinto que tenho algo a provar para mim mesma. Eu sou minha maior crítica. Não forço nada, escrevo a partir das minhas experiências, com o meu olhar lúdico, do jeito que sempre fiz. Mas sou obcecada por polimento. Se a música não está exatamente como eu imagino, ela não sai. É simples assim.


RS: Você já disse que não gosta de soltar muitos singles por álbum, mas esse parece ter energia de carta de apresentação. Dancing Plague é o DNA da nova era ou só a porta de entrada para algo ainda mais extremo?

HE: Dancing Plague é um ponto de encontro dentro do álbum, mas não é o trabalho inteiro. É a entrada de um labirinto. O disco transita entre techno europeu, trance, industrial, art-pop, alternativo. É uma mistura de excessos, emocionais e físicos, sensoriais e simbólicos. A faixa introduz esse universo, mas ainda há coisas muito mais extremas lá dentro.


RS: A letra é pesada, visceral, ritualística. Foi difícil encontrar esse tom ou você já vinha flertando com esse lado mais sombrio há anos, só não tinha deixado ele sair?

HE: Esse lado sempre existiu em mim. Eu só não tinha deixado ele sair completamente. Quando finalmente sentei para escrever Dancing Plague, o tom veio naturalmente. A música ainda é minha: tem meu humor estranho, meu olhar lúdico, minhas obsessões. É sombria, mas também constrói um universo. Isso faz parte da minha escrita desde o início.


RS: Depois de trabalhar com temas de exaustão, febre e vício em movimento, me pergunto onde você se coloca nessa conversa. Essa era é sobre se libertar ou sobre admitir que parte de você gosta desse território instável?

HE: Acho que libertação e sombra caminham juntas. Meu próximo álbum fala muito disso: enfrentar medos, vícios, ansiedades, aquilo que você tenta esconder até de si mesmo. É intenso, às vezes doloroso, mas necessário. Não existe luz sem aceitar o que está distorcido.


RS: Para fechar, quando você olha para si mesma longe do estúdio, dos palcos e das expectativas, o que você acha que ainda está tentando entender sobre você mesma, e o que espera que essa era te ajude a descobrir?

HE: Fora de tudo isso, acho que ainda estou tentando entender como existir sem me cobrar demais. Essa era me força a olhar para mim sem filtro. Espero que ela me ajude a aceitar minhas contradições e, quem sabe, a dançar com elas em vez de só tentar domá-las.



Publicado em 01/12/2025 por Rolling Stone.

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Mallone
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Hurrance Evans
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