Entrevista Vogue Adria sijecanj 2026 — LaShae fotografirana od Renell Medrano

VOGUE: Olá, Lashae! Seja bem-vinda à revista VOGUE, é um prazer imenso recebê-la. Como você está se sentindo neste momento?

LASHAE: Olá, eu quem agradeço! Fico sempre feliz em conversar com a VOGUE, que sempre me apoiou em todos esses anos de carreira.

VOGUE: Faz um tempo desde o seu último lançamento antes de Etcetera. Quais diferenças você percebe entre a Lashae daquele período e a artista que assina este novo álbum?

LASHAE: A LaShae do primeiro álbum carregava a sensação de que precisava provar algo e fazia música muito mais para atender expectativas externas do que para satisfazer a si mesma. Hoje, a diferença central é justamente essa inversão de perspectiva. Tudo o que produzi desde o fim do hiato foi pensado para atender à minha crítica mais rigorosa: eu mesma. O processo criativo de Etcetera também refletiu essa mudança. Optei por respeitar meu próprio ritmo, sem pressa, tanto que levei mais de dois anos para encontrar a estética que realmente traduzisse as composições em imagem.



VOGUE: Sobre Etcetera, o que te motivou a escrever este projeto? Quais experiências e sentimentos culminaram na criação do álbum?

LASHAE: Etcetera nasceu em um período de profunda tristeza e de coração partido, e a faixa Every Man foi o ponto de partida de todo o processo. Inicialmente, eu imaginava um disco mais erótico (Gilda ainda carrega vestígios dessa ideia) mas não sob uma ótica sensual ou romântica. A intenção era algo mais instintivo, quase selvagem, explorando as estruturas de poder que atravessam o ato sexual. Com o tempo, esse conceito foi se desfazendo. Percebi que não tenho tanta afinidade para compor sobre sexo de forma central *risos* e também notei a existência de trabalhos recentes que dialogavam com propostas semelhantes, como Depravation, do Danny Wolf. Preferi, então, me afastar desse caminho. Na verdade, o conceito definitivo do álbum só se consolidou após todas as faixas estarem prontas. Ao revisar o disco, identifiquei um eixo comum que as conectava: a solidão e a necessidade quase visceral de ser amado. Quanto às experiências que influenciaram esse trabalho, ele nasceu menos de acontecimentos concretos e mais das divagações de uma mente fértil, ainda que eu sempre encontre maneiras de inserir minhas próprias subjetividades em cada letra.

VOGUE: Em Etcetera, vemos uma Lashae mais densa, introspectiva e consciente de suas próprias fragilidades, revelando uma artista ainda mais precisa em suas escolhas. Você buscou novas referências ou inspirações durante o processo de composição?

LASHAE: Tudo me inspira e acredito que qualquer coisa pode se transformar em música: um filme, um post no Instagram ou no Twitter, uma imagem isolada, uma conversa despretensiosa com amigos. Tudo isso acaba me sensibilizando de alguma forma e se refletindo no processo criativo. Mas quem acompanha minha trajetória sabe que o cinema sempre foi a minha principal fonte de inspiração, especialmente os filmes clássicos. Para este disco, me inspirei profundamente em “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, do Fassbinder, e em “Viver a Vida”, do Godard. São obras que lidam com solidão, desejo, poder, silêncio e com personagens femininas complexas, frágeis e, ao mesmo tempo, extremamente conscientes de si.



VOGUE: O álbum também apresenta um novo visual, que dialoga diretamente com o peso emocional da obra. Sabemos que você acompanha de perto todas as etapas criativas do seu trabalho. Quais foram os desafios ao construir essa identidade visual e conectá-la com esse momento mais sombrio e silencioso da sua composição? Como foi trabalhar sob essa nova perspectiva?

LASHAE: Construir a identidade visual de Etcetera foi, sem dúvida, o processo mais árduo de todo o projeto. A estética do álbum passou por pelo menos cinco reformulações completas até que eu finalmente me sentisse representada pela versão final. O principal desafio era encontrar uma linguagem visual que fosse reproduzível, não apenas na capa, mas também no encarte e em todos os materiais de divulgação. É importante lembrar que esse processo começou há mais de dois anos, em um momento em que a inteligência artificial ainda era pouco acessível e muito menos difundida como ferramenta criativa. Por muito tempo, a estética existia apenas de forma muito clara na minha cabeça mas era extremamente difícil traduzi-la em imagens concretas. Com a popularização da IA, esse abismo diminuiu e se tornou mais fácil materializar aquilo que eu imaginava. Mesmo assim, eu participei ativamente, editando e refinando o encarte repetidas vezes até que tudo alcançasse o tom exato que eu buscava. A capa do disco foi editada 90% sem IA.

VOGUE: Em relação a este lançamento e à forma como você se posiciona artisticamente agora, o que podemos esperar dos seus próximos passos na indústria?

LASHAE: Honestamente, o que eu mais desejo é não levar tanto tempo para lançar o terceiro disco *risos*. Para minha própria surpresa, ele já está consideravelmente adiantado e representa algo completamente diferente de tudo o que já apresentei como LaShae até agora e diria, inclusive, que é quase um anti-Etcetera *risos*. Ele vai refletir bem o momento da minha carreira e vida pessoal atual, que é leve e de felicidade. Acredito que muitos dos meus fãs irão estranhar mas também espero conquistar um novo público, veremos.



VOGUE: Em entrevistas, você descreveu o álbum como um trabalho mais pesado, escrito em um momento de profunda solidão, mesmo cercada por multidões. Em que ponto essa sensação começou a se transformar em música?

LASHAE: Essa sensação começou a se transformar em música no momento em que eu finalmente me permiti sentar, pegar a caneta e escrever os primeiros versos de “Every Man”. Embora esses sentimentos já me acompanhassem há muito tempo, eles permaneciam silenciosos dentro de mim. A virada aconteceu quando tive contato com passagens de A Balada do Cárcere de Reading, do Oscar Wilde, que me impactaram profundamente e me deram coragem para externalizar tudo aquilo. Mesmo depois de concluir a canção, ainda houve muita hesitação. Eu relutei em lançá-la e me vi presa a um conflito interno constante: será que as pessoas ainda sentem minha falta? Será que precisam mesmo de uma música nova da LaShae?

VOGUE: Embora o álbum não siga uma narrativa linear, ele parece unido por um mesmo sentimento: pessoas presas em situações que sabem ser destrutivas. O que mais te interessava explorar nessas histórias?

LASHAE: Eu acho que existe algo de profundamente humano nessa contradição entre lucidez e autossabotagem, de permanecer em um relacionamento que você sabe que te faz mal. Essas histórias me atraem pela tensão silenciosa que elas carregam: o apego ao que fere, a dificuldade de romper ciclos e a necessidade desesperada de pertencimento, mesmo quando o custo é alto. Em Etcetera, eu quis escrever e observar esses personagens sem julgá-los, apenas registrando suas fragilidades, seus desejos e a solidão que os mantém presos. Foi um processo de composição muito difícil pois há uma linha tênue entre a retratação e a romantização e apologia.



VOGUE: O título Etcetera carrega a ideia do que fica nas entrelinhas, do que não é nomeado. Como foi, para você, criar um projeto que fala tanto sobre o silêncio quanto sobre a palavra não ditos presentes em Etcetera?

LASHAE: Ao escrever Etcetera, eu me propus a transformar em palavras tudo aquilo que, por muito tempo, permaneceu guardado e nunca havia sido verbalizado, nem mesmo em conversas íntimas com meus amigos, e esse processo foi profundamente libertador. O álbum nasce justamente dessa tensão entre dizer e calar. Em muitos momentos, eu precisei escolher com precisão o que seria nomeado e o que ficaria apenas sugerido, porque algumas experiências perdem força quando são excessivamente explicadas. Eu não quis construir uma narrativa linear nem personagens rigidamente definidos, mas apenas sugerir traços e situações distintas, de modo a permitir uma identificação mais ampla e a representação de estados emocionais coletivos. Muitas pessoas carregam histórias, dores e desejos que nunca conseguiram expressar, e espero que possam se reconhecer nesses versos e encontrar algum tipo de espelho ou acalento.

VOGUE: A moda sempre acompanha suas escolhas visuais. Neste novo momento, como você enxerga a moda como uma ferramenta de linguagem dentro do universo de Etcetera?

LASHAE: A moda está presente principalmente no figurino no ensaio fotográfico do álbum. Eu procurei peças que trouxessem esse ar vintage e surrealista que permeava a minha mente. Acredito que trouxe uma maior força às imagens e ajudou a reproduzir o conceito do projeto. Trabalhar com o Leslie Zhang foi essencial nesse sentido, porque o olhar dela entende a moda como construção de histórias, não como simples imagem. Mais do que estética, o vestuário funcionou como extensão do conceito do álbum, ajudando a traduzir visualmente suas camadas de silêncio, estranhamento e introspecção.

VOGUE: Lashae, encerramos aqui nossa conversa. Foi um prazer imenso falar com você. Gostaria de deixar uma mensagem para o público que acompanhou sua espera e agora vivencia este novo capítulo?

LASHAE: Muito obrigada pelo convite. Gostaria de agradecer também aos meus fãs pela paciência e fidelidade. Espero que o Etcetera encontre cada um de vocês no momento certo, seja como companhia ou como conforto. Fico muito feliz em poder compartilhar uma parte tão vulnerável de mim com quem esteve presente durante todo esse percurso. Obrigada por ficarem e acreditem: ainda há muito mais de mim pela frente. Um beijo.




Publicado em 26/01/2026 por VOGUE.

Comentários

Marie Vaccari
Deusa icônica!!