Vogue Deutsch April 2026 — Lexie von Gregory Harris

VOGUE: Lexie, sua carreira foi construída à base de muito suor, altos, baixos, mas também de muita paixão. Você nunca seguiu a linha que a indústria ama, que é aquela música que fala de batalhas depressivas, perdas familiares ou pedido de desculpas. Sendo fora da curva, você precisou provar seu ponto muitas vezes. Como você descreveria sua jornada musical até agora e o quão cansativo foi pra você se manter relevante nessa indústria?
LEXIE: Intenso. Tive muito trabalho duro e dobrado para conseguir que comecem a me respeitar enquanto artista. Eu não sei em que mundo as pessoas vivem que, se sentem mais artistas que outros apenas por abordarem sempre temas melancólicos e tristes. Tive muito trabalho para conquistar cada espacinho que hoje tenho, porque segui o caminho mais difícil, o caminho que me agradasse. É desanimador demais, você se esforça, você luta por aquilo, e mesmo assim não te veem com os mesmo olhos que você se vê. É frustrante, mas acho que isso vai mudar a longo prazo conforme as pessoas se adaptarem mais aos artistas que como eu, não cantam somente sobre essa vertente conceitual de tristeza infinita.
VOGUE: Você é uma artista ousada. Falar de sexualidade nunca foi um problema, de forma explícita ou mais singela, o sexo sempre esteve presente ali e com isso você lidou com o conservadorismo musical da crítica e da indústria. Você sente que sua música é como se fosse um ato de rebelião contra esses tópicos?
LEXIE: Não sei. Talvez sim, talvez não. Tudo que posso dizer é que eu sempre me esforcei pra ser fiel ao que eu senti vontade de lançar. Porque, olhe bem, você não entra em uma festa para dançar músicas tristes. Quando você está ali socializando com amigos, você quer curtir o momento. Imagine que você está naquele ponto de flerte com alguém e a trilha sonora é uma música sobre depressão. Acredito que principalmente no Famous as pessoas se esquecem da realidade e que nem tudo é triste, nem tudo é pra ser extremamente sério, nem tudo é conservadorismo.

VOGUE: Após anos na indústria, você já viu de tudo. Chegarem, partirem, cancelamentos, regenerações e panelas. Como você descreveria esse mundo em que estamos todos diariamente querendo ser bem sucedidos?
LEXIE: Cruel. E me incluo nisso. Nós muitas vezes pesamos a mão na forma que agimos e falamos. Quantas e quantas vezes houveram discussões sem necessidade ou até mesmo acusações sem fundamento algum. Eu mesma tinha uma visão sobre várias pessoas e hoje tenho outra. Faz parte de tudo que a gente vive, seja no Famous ou na vida fora dele.
VOGUE: "Meretrício" e o álbum "Sexercize" foram uma virada de chave na sua carreira e você sabe disso. Como veio a ideia de lançar esse álbum e como você estava se sentindo naquela época? Ver tudo que ele conquistou, você sente que o dever foi cumprido? E como você acha que estaria hoje sua carreira se não tivesse lançado esse trabalho?
LEXIE: Meretrício e o Sexercize vieram do meu desejo de entrar de cabeça nessa coisa do lírico sensual, músicas pra se divertir, do urban, de trazer mesmo essa coisa da música popular. Sentia muita falta disso, e acho que me encontrei nessa pegada. Acredito que se eu não seguisse esse caminho, na verdade nunca teria lançado meu álbum. Ele foi meu norte. Foi a resposta que eu procurava de qual seria meu objetivo no Famous. Eu já lancei todo tipo de música, mas nada era tão ‘Lexie’ quanto foi essa era, por isso chamo ele de meu tesouro pessoal.

VOGUE: Hoje você parte do hall de artistas que receberam um prêmio honorário, algo extraordinário pra qualquer um e o melhor, foi um sucesso de público e crítica. Como você se sentiu com esse prêmio e o que ele representa em sua carreira e pra Lexie como pessoa?
LEXIE: Para mim foi uma noite épica. Nunca vou me esquecer de subir naquele palco e reviver tudo que passei pra chegar até aqui. É um turbilhão de emoções que não sei como explicar. Sabe aquele frio na barriga que a gente sente quando vai se apresentar pela primeira vez?! Foi isso que senti. Estava preocupada de não parecer eu mesma. Acho que esse momento me mostrou que apesar das duras críticas que sempre recebo, meu trabalho é coeso e que, mesmo não sendo profundo, liricamente falando, ele conversa com o público que eu quero alcançar. É o resultado de tudo que lutei para ter um espaço.
VOGUE: Estamos vendo uma nova safra de artistas vindo com sangue nos olhos para crescerem em suas carreiras, você tem acompanhado alguns? Qual conselho você daria e eles sendo uma veterana?
LEXIE: Sim. Acompanho de perto a Julie Welt, Sophie e Vie. Acho que eles tem muito potencial de crescimento. Eles têm essa coisa ‘fresh’ com eles. O conselho que posso dar é tentar sempre se manter firme no que acredita. Mesmo que as críticas sejam duras, com esforço e dedicação, podemos chegar em lugares que nunca imaginávamos.

VOGUE: Em seu discurso de honor você citou que para vocês latinos, tudo tem que ser um dobro. Por qual motivo você acredita que por muito tempo houve um preconceito com o gênero?
LEXIE: Pelo fato de que não seguimos um padrão. Não precisamos nos preocupar em sermos iguais uns aos outros porque temos uma vasta diversidade em que podemos nos apoiar. Somos artistas com ótimas propostas, mas antes mesmo de tentarem entender o que estamos trazendo, as pessoas nos rotulam, nos colocam dentro de uma única caixa como se fôssemos todos o mesmo. E não somos assim. Cada um segue um caminho.
VOGUE: Se você estivesse frente a frente com a Lexie lá do seu início, o que você diria a ela?
LEXIE: Pra ser mais cuidadosa com quem está ao redor e consigo mesma. No início eu não pensava nas consequências de nada, nem mesmo no que eu causaria nas pessoas. Acredito que todos merecemos um recomeço, e com ajuda de várias pessoas eu amadureci e hoje vejo o quanto mudei.

VOGUE: Vimos recentemente que seu último EP recebeu críticas negativas, isso ainda te frustra? Por que as pessoas têm tanto medo de ler sobre sexo se é uma coisa de que todo mundo gosta e faz?
LEXIE: Por pura birra. Me incomoda um pouco sim. No Sexercize a desculpa da crítica num geral foi sobre a faixa de introdução do álbum não ter o lírico no link da faixa, mesmo tendo no encarte. Hoje vejo pessoas que cometeram o mesmo erro, mas isso não se tornou pauta para avaliação. A questão é que realmente fazem essas reviews na tentativa de te humilhar publicamente. Quem escreve, muitas vezes só vai apertando no teclado e posta o que sair disso, nem se dá o trabalho de ler o que tá escrevendo. Me frustra um pouco sim, porque as pessoas do Famous precisam acordar e entender que o mundo não é só feito de músicas depressivas, tristes, sobre problemas pessoais e etc. Eu realmente não entendo qual o problema tem em cantar sobre sexo, sobre ser vulgar, isso faz parte do cotidiano de todo mundo. Mas é como falei, a pessoa sente um certo ‘poder’ quando fala negativamente sobre isso. É como se todos que o fazem, estivessem num pedestal de santidade.
VOGUE: Quais são seus planos para o futuro em sua carreira? Há um novo álbum em mente? O que você pretende explorar em uma nova era?
LEXIE: Sim. Estou trabalhando incansavelmente no meu próximo trabalho. Estou seguindo ritmos e formas novas de lançamentos se comparados aos meus trabalhos anteriores. Estou muito inspirada no R&B, no Pop, No Hip Hop. Acho que vai ser um trabalho muito divertido de acompanhar.
VOGUE: Recentemente você teve outro grande passo em sua carreira que foi virar uma das administradoras da maior gravadora da indústria, a Wild Music Group. Como você recebeu essa notícia, o quanto você acredita que suas experiências podem ajudar a gravadora e como você está desenvolvendo seu papel de empresária?
LEXIE: Nossa, foi surreal quando recebi o convite. Eu estava me preparando pra performance do FMAs, quando recebi a proposta. Fiquei apreensiva porque para mim é uma coisa nova. Mesmo que lá no passado eu já tenha passado pela experiência de administrar uma gravadora, nada te prepara para fazer parte da administração de uma gravadora gigante como a Wild. Estou começando aos poucos a me adaptar, mas tem sido bem tranquilo porque tenho pessoas incríveis que me ajudam a dar cada passo. A Naomi sempre me aconselha muito, Coline sempre me ensinando coisas novas, Alex Fleming me direcionando nas melhores opções do que fazer, Nick Diaz sempre me inspirando com a imparcialidade ao resolver problemas, Remy e você Bronx sempre trazendo leveza em tudo, fazendo que se torne um trabalho gotoso e alto astral sempre.
VOGUE: O que nunca te fez desistir de estar na indústria?
LEXIE: Acredito que todo apoio que sempre recebi. Tenho amigos que sempre me mostram que eu faço algo bom, entende?! Eu as vezes duvido de mim e do que faço, mas eles me mostram sempre que tenho valor sim, e que meu trabalho é sólido. A Wild ter me aberto as portas foi como um sopro de ar fresco. Me inspiro muito sempre pelas conversas que temos lá. Mesmo que meu conteúdo seja um pouco repetitivo as vezes, eu to sempre escrevendo algo, pensando em algo, criando conceitos mirabolantes que nunca saem do papel, mas quem sabe um dia. Acho que depois do meu primeiro álbum, eu me senti mais tranquila para continuar. Meu maior medo era as pessoas não entenderem que eu só quero trazer diversão, nada além disso. Que eu tento trazer essa coisa do humor, do sensual, porque isso que me agrada. Não quer dizer que eu nunca vá lançar trabalhos mais sérios ou com músicas melancólicas. Mas, meu principal foco sempre foi dar leveza no dia a dia.

Publicado em 27/04/2026 por VOGUE.