Vogue Philippines June 2026 — Caleb Bradshaw by Mitsuo Okamoto

VOGUE: Olá, Caleb! Seja muito bem-vindo à Vogue. The Last Show in Shinjuku marca sua estreia na indústria musical e já desperta muita curiosidade. Como está se sentindo ao apresentar esse universo ao público pela primeira vez?
Caleb: Hiii. É um imenso prazer estar aqui. A sensação de apresentar esse universo é de um alívio misturado com expectativa. Sinto como se estivesse finalmente abrindo as cortinas de uma sala que mantive trancada por muito tempo. É o momento em que a ideia deixa de ser apenas uma conversa comigo mesmo e passa a ganhar vida através do ouvido de quem escuta, e isso me deixa completamente contente.
VOGUE: The Last Show in Shinjuku parece carregar uma forte narrativa visual e emocional. Como surgiu a ideia por trás desse título e o que Shinjuku representa dentro da construção do álbum?
Caleb: Eu sou metade japonês e cresci ouvindo meus avós e parentes ouvindo músicas pop e rock clássicos. Quando eu decidi que queria seguir a vida artística nos Estados Unidos, eu tive que voltar para cá e tentar sentir o que eles sentiram na década de 80. Shinjuku é o lugar onde o tempo parece não ter um relógio real, apenas um fluxo constante de luzes. O título nasceu de uma percepção de que todas as grandes noites um dia precisam ter um ponto de parada e, obviamente, nasceram das experiências que tive passando por lá somado com uma glamourização imaginária. O distrito representa o cenário onde a fantasia humana atinge o seu ápice e depois se dissolve na luz do amanhecer.
VOGUE: Sendo um artista novo, existe uma certa pressão em apresentar uma identidade sólida logo no primeiro projeto. Como foi lidar com as expectativas externas enquanto descobria a sua própria voz artística?
Caleb: A pressão existe, mas ela se torna inofensiva quando você decide que não está aqui para satisfazer padrões nem números, mas para documentar uma verdade. Eu não busquei uma identidade sólida para agradar o mercado; eu apenas fui honesto com o que eu queria fazer. Quando o projeto tem uma espinha dorsal emocional, a identidade não é forçada, ela é inevitável.

VOGUE: Ao longo do álbum, percebemos uma atmosfera melancólica e quase cinematográfica. Houve algum acontecimento pessoal ou experiência específica que serviu como ponto de partida para essa obra?
Caleb: A melancolia nasceu comigo e é meu maior relacionamento (risos). Mas o ponto de partida foi uma série de noites e manhãs, nos trens, nos espaços de passagem em lugares abertos e fechados. É sobre a solidão de estar rodeado por milhões de luzes e pessoas, mas ainda assim sentir que você é o único espectador dessa coisa toda. Não tem nada realmente traumático, são pequenas histórias que você pode encontrar em Shinjuku, em Nova York e em qualquer lugar (risos).
VOGUE: Muito além da música, seu trabalho parece construir um espaço entre memória, fantasia e despedida. Quais referências – sejam elas literárias, cinematográficas ou musicais — acompanharam seu processo criativo?
Caleb: Minhas referências são um emaranhado. O cinema noir japonês e, obviamente, chinês (rio), a literatura que trata sobre a falibilidade humana e a música que entende o silêncio tanto quanto entende o barulho. Artistas que não tiveram medo de criar mundos próprios, mesmo que fossem mundos que ninguém mais entendesse. Mas admito que a maior influência foram os sons oitentistas japoneses que eu ouvia. Nessa época, o Japão vivia uma evolução na economia e tecnologia, então foi criado o City Pop, que é um som alegre, que esbanja luxúria e é extremamente característico. Eu gostaria de poder reviver isso e trazer essa experiência para outras pessoas no meu álbum.
VOGUE: Seu visual já se tornou uma extensão importante da narrativa de The Last Show in Shinjuku. Como a moda participa da construção da sua identidade como artista?
Caleb: A moda para mim é o idioma silencioso que antecede nossas palavras. Em Shinjuku, as pessoas se vestem para esconder ou para revelar quem são, e eu trato meu figurino da mesma forma: como uma armadura que se desintegra. No palco não posso ser apenas um cantor, mas sim um personagem que atravessa o tempo. Por isso, o corte de uma alfaiataria que remete aos anos 80. Mas, claro, que nos dias de hoje eu estilizo junto com minha equipe para que isso também tenha minha personalidade, com silhueta ou peças que não eram comuns nessa época. Se o estilo não contar uma história, ele é apenas vaidade, que é o que mais vemos.

VOGUE: A indústria da moda e a música têm se aproximado cada vez mais. Existem estilistas, maisons ou movimentos estéticos que influenciam a maneira como você se apresenta ao público?
Caleb: Eu admiro quem entende que a estética é um manifesto. Movimentos como o minimalismo japonês, mas também a desconstrução que vemos em algumas maisons que ousam quebrar a silhueta clássica. Eu me inspiro naqueles que tratam a roupa como uma segunda pele, algo que conta a história antes mesmo de eu abrir a boca para cantar. Eu poderia citar David Bowie e Hide, que são inspirações populares, e, pela produção, poderia ser Yohji Yamamoto.
VOGUE: O álbum carrega a palavra “último” no título, como se estivéssemos assistindo ao encerramento de um ciclo antes mesmo do início de uma trajetória. Existe alguma mensagem por trás dessa aparente contradição?
Caleb: O fim de um ciclo é o único jeito de garantir um começo autêntico, não acha? Eu, pelo menos, sempre faço algo muito trágico para começar algo incrível (risos). A contradição está no fato de que, na arte, o fim é onde a imortalidade começa. Ao dizer que é o último show, eu estou dizendo que aquele momento, aquela noite específica, é única e irrepetível. É uma forma de honrar a efemeridade das coisas que amamos.

VOGUE: Agora que o público finalmente pode conhecer Caleb através de The Last Show in Shinjuku, qual é o principal sentimento que você espera deixar em quem escutar esse primeiro capítulo da sua carreira?
Caleb: O que eu sinto: nostalgia. Sabe quando você ouve algo e pensa: eu sinto que já ouvi isso antes (sorrio)? Todos os ouvintes foram convidados para um lugar que também existe dentro deles. Se alguém puder ouvir o álbum e sentir que não está sozinho na sua própria busca, então estarei satisfeito. O álbum tem picos de alegria e tristeza, mas o seu final é de esperança, que é o que precisamos.
VOGUE: Para encerrarmos, toda estreia carrega consigo uma promessa silenciosa sobre o futuro. Se pudesse deixar uma única frase para o Caleb que existirá daqui a dez anos, após o último aplauso e todas as luzes terem se apagado, o que diria a ele?
Caleb: Eu diria a ele que a arte não sobrevive do que a gente conquista, mas do que a gente tem a coragem de descartar. Daqui a dez anos, quando as luzes deste show forem apenas uma nota de rodapé no meu memorial, espero que ele ainda saiba que o objetivo nunca foi chegar ao topo. Não ter medo de se tornar outra pessoa se isso for necessário para continuar sendo quem você é de verdade. Continue escrevendo, continue se despindo de tudo o que for supérfluo, porque o tempo é a única métrica que, no final, a gente não consegue enganar.

Publicado em 23/06/2026 por VOGUE.