Cover Story: Non Solo Fragile. Period.

Após anos longe dos álbuns, Marie está pronta para emergir novamente, ainda que não esconda as cicatrizes, as dúvidas e o nervosismo que acompanham esse retorno. Com CANDLES, quarto single de seu aguardado novo disco, NON SONO FRAGILE, a artista transforma sentimentos contraditórios em um recomeço: o desejo de se entregar, a necessidade de se proteger e a difícil tentativa de se reconectar com uma versão de si mesma que começou a construir anos atrás.
Esse reencontro também marca um novo capítulo para a Rolling Stone. Esta é a nossa primeira Cover Story desde dezembro, encerrando um intervalo de sete meses e simbolizando a volta da revista em um momento que não poderia ser mais apropriado. De um lado, uma artista reconstruindo sua trajetória e preparando o lançamento de um projeto há muito aguardado. Do outro, nosso editorial retomando suas grandes histórias de capa.
Desde Lady in the Night, lançado em 2020, muita coisa mudou. A chama impetuosa dos primeiros anos deu lugar a uma artista mais consciente dos próprios limites, endurecida pelas oscilações de uma indústria capaz de celebrar e desvalorizar seus nomes com a mesma velocidade. Ainda assim, Marie permanece. Hoje, divide-se entre a música e o comando da maior revista de moda da indústria, dois universos que se encontram em sua atenção aos detalhes, na força de sua imagem e no compromisso quase obstinado com cada projeto.
Em sua primeira capa para a Rolling Stone, Marie fala sobre o longo e agridoce processo de criação de NON SONO FRAGILE, a possibilidade de abandonar o álbum, sua relação indissociável com a moda e as lições que gostaria de ter aprendido no início da carreira. Entre risos, vulnerabilidade e uma honestidade rara, ela reconhece que talvez tenha sido boazinha demais, mas ainda há tempo para brigar pelo próprio trabalho.

RS: Marie, é uma honra estar falando com você agora. Bem, em dezembro, você lançou CANDLES, como quarto single de seu novo álbum. O que essa música representa pra você e qual papel ela exerce nesse momento de sua carreira?
MARIE: É um prazer finalmente estampar a capa da Rolling Stone e ser entrevistada por vocês! CANDLES representa, para mim, um novo recomeço, um emergir. Meus lançamentos foram muito espaçados, então precisei me reconectar com o público e me expressar de forma sincera para que esse “emergir” fizesse sentido. É uma nova chance de continuar me colocando no mundo como artista.
RS: Você revelou, em entrevista na época do lançamento da canção, que o seu novo disco se chamará NON SONO FRAGILE. O que você pode nos dizer sobre como está o processo de criação do disco?
MARIE: Tem sido um processo bem agridoce, para ser sincera. É um álbum que venho prolongando há muito tempo, então se torna desafiador retomar algo que planejei anos atrás e tentar me reconectar com ele. Confesso que, em alguns momentos, pensei em cancelá-lo, mas já percorri um caminho tão longo que desistir agora não faz sentido. Ainda preciso finalizar uma canção, já que retirei outra de última hora por não me conectar mais com ela. Visualmente, o projeto ainda está tomando forma, mas já temos bastante material para o encarte e para a divulgação.

RS: Muitos artistas não demoram tanto pra lançar um novo álbum, mas, você, está desde 2020 sem um novo disco. Qual é a diferença da Marie na era Lady in the Night para a do NON SOLO FRAGILE? Você sente que amadureceu como artista desde o lançamento deste álbum?
MARIE: Excelente pergunta! Eu diria que a Marie da era Lady in the Night tinha uma chama muito forte, algo vivaz pulsando nela, um ímpeto enorme de fazer acontecer. Sinto que perdi um pouco disso ao longo do tempo, talvez pelo desgaste de uma indústria que, em certos momentos, te valoriza e, em outros, te desvaloriza completamente. Esse movimento acabou me desanimando. Mas acredito, sim, que amadureci desde Lady in the Night: hoje sei reconhecer com mais clareza quando insistir e quando parar, além de lidar melhor com decepções e pressões.
RS: Seu álbum já teve duas colaborações lançadas como single anteriormente, podemos esperar novas parcerias no disco? Se sim, qual spoiler consegue nos dar dos artistas presentes nas novas músicas?
Marie: Infelizmente, não. Jaehyuk e Bronx são as únicas colaborações nesse álbum, mas talvez tenhamos alguns remixes por aí.
RS: Voltando a conversa sobre seu último single, a música reflete sobre sentir falta de alguém que lhe fez muito mal. Qual foi a parte mais difícil de escrever da música?
MARIE: A parte mais difícil foi me reconectar com sentimentos muito sensíveis e revisitar essa vulnerabilidade: o desejo pelo outro, a entrega e, ao mesmo tempo, a necessidade de se proteger. São emoções conflitantes que, quando surgem juntas, se tornam confusas. O processo de escrita também foi desafiador; precisei colocar tudo no papel de forma quase instintiva, tudo o que eu sentia ou lembrava, para depois organizar essas emoções em palavras claras e coerentes. Foi uma composição difícil, mas extremamente prazerosa ao ver o resultado final.
RS: Ao longo da sua carreira, você sempre se destacou no cenário fashionista da indústria. Em que momento da sua carreira você passou a valorizar esse lado?
MARIE: Desde o início, não houve um momento específico de “virada de chave” que despertasse meu interesse pela moda ou a decisão de trazê-la como foco. A moda sempre esteve presente de forma intencional na minha trajetória, até porque minha relação com esse universo começou muito antes da minha carreira na música. Ela sempre fez parte da minha forma de me expressar.

RS: Além de ser cantora, você é CEO da maior revista de moda da indústria. Como é exercer esse duplo papel?
MARIE: É desafiador e prazeroso ao mesmo tempo. Eu adoro toda a agitação da revista, o processo criativo das capas, a organização dos eventos… tudo isso exige muito trabalho e, às vezes, gera alguns conflitos, mas faz parte da função. São dois papéis que pedem muita disciplina e comprometimento. Em alguns momentos preciso colocar o pé no freio, porque muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, mas, no fim das contas, eu amo essa correria.
RS: Falando novamente no seu novo álbum, se pudesse definir o NON SOLO FRAGILE em uma única emoção, qual seria?
MARIE: No momento, nervosismo. Mas quando ele for lançado, acredito que o sentimento será de alívio. Por tudo o que já comentei antes, o tempo, o processo longo e a necessidade de me reconectar com essa ideia depois de tantos anos.
RS: Em seus últimos singles, o aspecto visual sempre foi ponto forte, além de possuir letras muito bem executadas. Como funciona esse processo pra você?
MARIE: Obrigada pelo elogio! Eu não sigo uma fórmula fixa para as produções visuais. Em alguns projetos, eu sei exatamente o que quero e acabo sendo um pouco inflexível; a Effie sentiu isso na pele quando produzimos COUTURE (risos). Mas, na maioria das vezes, eu gosto de ver o que o produtor vai me propor. Normalmente levo uma palavra-chave, um símbolo, um ícone ou até uma imagem, explico a atmosfera que imagino e deixo o restante fluir. Meus últimos quatro singles tiveram produtores diferentes, então cada processo foi único. Varia muito do que eu tenho em mente e da forma como cada produtor gosta de trabalhar, mas sempre faço questão de deixá-los à vontade para expressar e colocar as ideias em prática.
RS: O seu novo disco é com certeza um dos mais esperados do ano. O que você tem a dizer aos fãs que esperam ansiosamente para esse lançamento?
MARIE: Desculpem por ter feito vocês esperarem tanto por isso (risos). Espero, de verdade, que gostem, que possam dançar cada batida e sentir cada palavra cantada. Esse disco foi feito com muito cuidado e entrega.
RS: Para você, qual é o segredo para continuar relevante mesmo após tantos anos de carreira?
MARIE: É uma pergunta difícil. Acho que é uma combinação de fatores: estar presente, entregar qualidade e ter comprometimento. Nem tudo está sob o nosso controle, mas se comprometer com aquilo que você faz e fazer bem feito já ajuda, e muito, a continuar relevante.
RS: Pra finalizar, se você pudesse dizer algo para a Marie do The Pandora's Box, o que diria?
MARIE: Antes de responder, quero parabenizar vocês pelas excelentes perguntas. Espero que as respostas tenham estado à altura. Eu diria para ela brigar um pouco mais, defender mais o próprio trabalho e ficar mais atenta às pessoas e às suas intenções. Acho que briguei pouco nesse Famous — não que eu queira fazer isso agora —, mas olhando para trás, eu poderia ter sido mais firme, mais atrevida. Fui boazinha demais (risos). Também diria para não se abalar tanto com os outros. Sempre fui muito centrada, mas houve momentos em que acabei sendo “nocauteada”, e isso não foi nada agradável.

Publicado em 14/07/2026 por Rolling Stone.