Vogue Polska August 2026 — Marco by Lola & Pani

VOGUE: Olá, Marco. É um privilégio enorme te receber nas páginas da Vogue para a nossa edição de agosto. De um jovem artista se apresentando aos 17 anos até se tornar um compositor aclamado, dono de álbuns premiados e abraçado por uma legião devota de raindrops, sua arte sempre carregou um tom incomparável. Quando olhamos para o seu debut em 2019 com o álbum His um retrato minimalista e direto sobre as figuras masculinas e as vivências que marcaram o início de tudo. como você enxerga a evolução do seu processo de composição desde aqueles primeiros passos até encontrar a maturidade atual que hoje define a sua identidade artística?
Marco: É um privilégio conversar com vocês e, bem, ouvindo essa descrição, não pude controlar o riso. Não sei se é uma certa timidez, um orgulho ao olhar para trás ou uma mistura dessas coisas... Mas é engraçado se deparar consigo mesmo às vezes, não é? [Risos]. Bom, quando eu escrevi His, eu era um adolescente, então havia muita projeção ali. Havia muitas coisas que eu queria ser, havia uma espécie de criança tocando guitarra no ar e buscando ser um tipo de ídolo, entende? Não por causa da adoração, mas por causa da... completude. Acho que era isso que eu buscava. E ainda busco, mas por caminhos que me contemplam melhor, eu acho.
VOGUE: É reconfortante ver que essa autocrítica e esse bom humor continuam intactos, mesmo depois de tanta estrada e de álbuns que moldaram sua carreira até aqui. essa busca por completude que você mencionou lá atrás, nos tempos do His, parece ter mudado de forma radical quando você mergulhou nas referências literárias de Rainer Maria Rilke em 2020 e, logo depois, no folk-rock contestador de Coup De Grace. um disco que acabou te consagrando com premiações importantes e que trazia um "talvez eu esteja no caminho certo". olhando para essa transição, como foi o momento em que você percebeu que a música parou de ser somente a busca por ser um "ídolo" na adolescência e começou a ser o seu refúgio para questionar o mundo e o próprio show business?
Marco: Para estar no show business, você precisa nadar em um mar de estupidez, e isso cansa, a não ser que você seja igualmente estúpido. Você disse que eu estava no caminho certo com o Coup De Grace, um álbum que eu fiz como um "adeus, sem arrependimentos" à indústria musical. Então será que eu deveria ter me aposentado mesmo? [Risos]. Bem, eu desisti de desistir [risos] e cá estou. Você falou antes sobre amadurecimento... e acho que isso parte de não perceber que você está pronto. Quero dizer, eu sei o que funciona para mim e onde eu estou confortável, artisticamente falando, mas eu não gostaria de sentir que permaneço no mesmo lugar. Esse refúgio no qual eu me protejo do mundo – e também o enfrento – é algo que eu tenho construído e demolido constantemente. É nesses momentos de demolição em que eu talvez esteja mais vulnerável, em que talvez eu seja capaz de seguir em alguma jornada aonde quer que seja, e então brincar de ser artista ao longo do caminho. É onde habita um Marco que se disseca além daquele ídolo pueril.
VOGUE: Brincar de ser artista enquanto destrói e reconstrói seus próprios refúgios é provavelmente o que mantem sua discografia imprevisível e fascinante. Toda semana vemos artistas novos e antigos dizendo que irão se aposentar em seguida lançam projetos incríveis (risos). mas foi exatamente nessa toada que você nos levou por caminhos completamente diferentes com o caos de Decreased Reality, mais recentemente, com o frescor e íntimo do Acerola, um projeto que nasceu quase por acaso em um bar e se transformou em um verdadeiro jardim. quando você abandona a armadura do Coup De Grace e decide abraçar o cru e as imperfeições cotidianas no Acerola, como isso transborda para o seu visual e como a sua relação com a moda e com a estética acompanha essa transição entre o um campo hermético e o vulnerável?
Marco: Eu certamente não gostaria de ser colocado nesse pacote de artistas que vão e voltam [acende um cigarro]. Eu acho isso uma mácula, mas sou meu pior crítico. Tanto faz [derruba as cinzas no cinzeiro com o dedo indicador]. Hmm... a moda sempre foi muito importante para mim, mas durante um tempo... eu acho que deixei isso e muitas coisas em segundo plano, porque eu perdi um pouco da capacidade de me divertir [descarta o cigarro por completo]. Quando eu fui convidado para performar no MET Gala desse ano, essa paixão reacendeu em mim, e eu pensei que seria muito legal explorar novas coisas no período de trabalho do Acerola. Então eu conheci algumas marcas, como EgonLab, que me vestiu para o Critics' Choice Awards, e revisitei outras já consagradas no meu guarda-roupa, e tentei moldar uma estética vibrante e ao mesmo tempo que transmitisse conforto. Às vezes, com alguns motivos que remetem a essa ideia do pomar e do jardim, coisa e tal... eu gosto disso. E foi bom recordar que eu gosto disso. Então, de certa forma, a moda pode te dotar de um mistério ou te tornar frágil. Tem todos os tipos de superpoderes. Para um artista, ter o privilégio de acessar isso é incrível. Com Acerola, meu objetivo foi encontrar um meio-termo nisso, porque não é um álbum em que eu sangre antes de dar um chute ao menos [risos].

VOGUE: Tirando a urgência de precisar sangrar para entregar uma obra. dita o Acerola. E ver você resgatar esse prazer pela moda, especialmente passando por palcos como o do Met Gala, mostra vc não habita apenas nas notas ou nas páginas dos seus cadernos, mas também na silhueta que você escolhe apresentar ao mundo. fechando esse ciclo que começou lá atrás no His e desaguou na maturidade solar deste novo disco: se o Marco de 2019 pudesse olhar para o homem e o artista sentado aqui hoje, vestindo essa nova fase, tour, uma base de fãs que cresceu junto com cada reinvenção sua e um cigarro (risos), o que você acha que ele diria?
Marco: Ele me daria um tapa na cara. E eu diria "desculpe por não saber fumar ainda, sou um palhaço. Mas até que você tem aprendido a rir disso".
VOGUE: Talvez tenha sido exatamente disso que você precisou para chegar até aqui (risos). aprofundando mais nessa com o Acerola, você mencionou na época do lançamento que o disco nasceu quase por acaso, a partir de um drinque e de uma epifania com a mitologia grega e o Jardim das Hespérides. Olhando para trás, compositores costumam buscar a dor ou o sofrimento como a grande tinta para suas canções, mas o Acerola se assume como um álbum solar e surpreendentemente feliz, mesmo lidando com desilusões. Como foi o processo de desintoxicar a sua escrita da autocomiseração e permitir que a felicidade virasse matéria-prima?
Marco: Autocomiseração? Essa bateu forte [risos]. Brincadeira. Foi um processo natural... um pouco angustiante, porque o álbum demorou a nascer, e por vezes eu pensei que ele morreria, e eu não queria que a história morresse. Eu comecei a escrevê-lo antes mesmo do Decreased Reality... mas, como já falei em outra ocasião, penso que me distanciar dos fatos fez com que essa escrita fluisse melhor com o tempo, e também que novos enredos se revelassem pra compor essa história que eu tentei contar.
VOGUE: E por falar nesse intervalo e na forma como você constrói suas narrativas, uma das faixas que mais chamou a atenção da crítica e dos fãs em Acerola foi “Anita”, onde você dialoga com a vida e o quase trágico fim da pintora modernista Anita Malfatti. Como foi traduzir o caos histórico, a sensibilidade e a vivência de outra artista?
Marco: Foi interessante porque eu estava conhecendo algumas pinturas dela e resolvi pesquisar sua biografia, daí descobri que ela viveu perto de uma ferrovia durante um período. E eu compartilho essa experiência, eu moro perto de uma ferrovia desativada. Anita foi uma grande vítima do criticismo em sua época. Isso matou parte dela, eu penso, ainda que ela não tivesse se vitimado nos trilhos de trem. Só que eu não queria que essa faixa soasse como um paralelo pretensioso, como se eu quisesse me equiparar a ela artisticamente. Eu queria explorar essa pequena coincidência, e partindo daí conjecturar o que fez ela seguir em frente, mesmo que não estivesse intacta. É uma das músicas minhas que eu consigo me distanciar, sabe. Às vezes a parte difícil do meu trabalho, de colocar tanto de mim no que eu escrevo, é que isso se torna uma espécie de contaminação. Então essas faixas em que eu crio personagens, falo sobre terceiras pessoas, eu sinto que terão uma sobrevida melhor.
VOGUE: Vamos puxar esse fio para a passarela e para a rua. A moda masculina tem passado por uma revolução lindíssima nos últimos anos, borrando as linhas entre o rigor clássico da alfaiataria e uma fluidez muito mais romântica e experimental algo que você mesmo começou a traduzir em suas aparições recentes. Quando você está compondo ou imerso na criação de um álbum, você consegue prever a silhueta ou o figurino que vai acompanhar aquela persona? Para você, a roupa é o ponto de partida que ajuda a entrar no personagem, ou o figurino só surge quando o disco já está pronto e você finalmente precisa "vestir" a história para o público?
Marco: Acho que é o segundo caso, eu sou mais prático e intuitivo. Quando estou compondo ou organizando um projeto, geralmente estou com uma roupa confortável e velha, a moda não é uma preocupação tão grande [risos]. Isso se torna mais prioritário quando as aparições públicas se aproximam. E aí é um processo mais lúdico. Por exemplo, para o CCAs desse ano, eu vi a coleção de outono 2026 da EgonLab, com vários looks de plumas e penas, e pensei "eu quero vestir isso, quero ser o pássaro do pomar". Eles foram gentis o bastante para me ceder todas as roupas que usei na premiação, e foi divertido brincar com essa ideia. Já para o Grammy Awards, eu queria usar branco, uma cor que tenho tentado priorizar em meu guarda-roupa. Então minha estilista entrou em contato com Zuhair Murad, e eu vesti aquele conjunto com motivos florais em pedraria, usado por Dallas anteriormente. Foi uma ideia parecida pro SCAD, em que vesti Wooyoungmi, uma silhueta mais clássica com alguns detalhes florais, dessa vez do próprio tecido. Nessa cerimônia em específico, às vezes eu acho que devo parecer mais profissional [risos], então foi importante encontrar esse balanço entre a sobriedade que a ocasião evoca para mim e o idílico que trago pra era atual.

VOGUE: Aprofundando um pouco mais nessa sua relação com o mercado musical e com a forma como você consome e avalia a própria arte hoje, você tem uma discografia extremamente rica e diversificada. Quando você se depara com análises especializadas, notas e rescritas da crítica sobre o seu som, qual é o seu grau de envolvimento com isso? Você lê as resenhas com a curiosidade de um fã ou prefere se isolar completamente do barulho externo para proteger o seu processo criativo?
Marco: Não, na verdade eu gosto muito de ler as críticas e as opiniões. Especialmente quando as pessoas notam algo que você deixou subentendido, ou mesmo quando têm uma interpretação própria... me recordo que, quando eu lancei o Rainer Maria Rilke, uma pessoa veio me falar que a faixa "Supernova" a havia tocado porque lembrava do avô dela que faleceu. Eu acho que foi um dos primeiros momentos em que eu pensei que talvez meu trabalho pudesse importar ou refletir no outro, mesmo que a minha experiência pessoal para escrevê-lo fosse diferente. Também foi nessa época em que criei uma amizade com Oliver Foster, que é alguém com quem partilho a minha vida até hoje. E isso começou porque ele escreveu coisas tão bonitas sobre meu trabalho... é uma emoção muito boa quando você sente que sua sensibilidade encontrou um ponto de repouso, e quando seus pares dão esse tipo de atenção, o que é difícil. Agora, isso de estar aberto às percepções é quando o trabalho já está no mundo, digamos assim. Com relação a proteger o processo criativo... eu sou extremamente autocrítico e não costumo expor e nem pedir opiniões enquanto crio, eu acho que é quando eu me sinto mais fraco e vulnerável. E eu não acho esse tipo de exposição uma coisa boa, sinceramente... porque, nesse momento, a opinião do outro pode mudar a sua direção. Então às vezes eu sou um pouco reticente quanto a opinar ou avaliar trabalhos nesse sentido, e acho que posso ser mal interpretado. Mas é tudo uma questão de respeito e autopreservação.
VOGUE: Estamos nos aproximando do fim da nossa conversa, o que o futuro guarda para Marco? Existe alguma porta que você abriu recentemente e que percebeu que ainda precisa explorar a fundo, ou por enquanto você só quer aproveitar a sombra e a calmaria?
Marco: Eu não sei... por enquanto, eu quero terminar a turnê. Há outras coisas legais que virão por aí, ainda trabalhando o disco Acerola, que eu não posso falar agora. O que eu realmente sinto é uma gratidão e uma realização imensa pelo que fiz até aqui. E, no meio disso, eu continuo escrevendo, pensando em projetos que eu gostaria de concretizar. Também é bom saber que esse vento ainda não parou de soprar sobre mim, e em novas direções. Sabe, estou contente. Então talvez alguma dessas coisas escape do bloco de notas e encontre o palco, ou o ouvido de vocês, quem sabe.
VOGUE: Marco, muito obrigado por esse café, por abrir o seu jardim e por nos guiar por essa jornada tão bonita. Foi uma honra para a Vogue.
Marco: Eu que agradeço, sempre será uma honra recebê-los. Basta me ligar antes [risos].