Na ficção científica, é comum que as ameaças venham do exterior: um extraterrestre invasor, um asteroide em rota de colisão, ou o frio implacável do espaço. Contudo, em “Joyride (The Monsters)”, o sexto e último single da fase imperial de Out Of This World, outtathisworld levanta uma questão ainda mais perturbadora: será que a abdução poderia ser, na verdade, uma forma de salvação? E se, ao invés de devorarem o seu cérebro, os monstros simplesmente desejassem oferecer-lhe um escudo para lhe proteger das incertezas do mundo exterior?
Em termos musicais, a canção apresenta uma fusão engenhosa da alegria vibrante do nu-disco com a atmosfera etérea e digital do vaporwave. Enquanto o disco "Out Of This World" (já celebrado com diversos prêmios de Melhor Álbum do Ano) explora uma variedade de universos sonoros, "Joyride" aterrissa em um mundo construído com sintetizadores nostálgicos. A produção remete à um filme "B" dos anos cinquenta, renovado para uma discoteca no futuro em 2050; é grandiosa e cinematográfica.
A canção funciona quase como uma história que alerta sobre como é fácil cairmos em hábitos autodestrutivos. A tal "Joyride" (essa jornada intensa, a vida como ela é) aparece como algo "bom demais para ser verdade", mas a personagem principal acaba se sentindo mais segura naquele "lugar sombrio" dentro de si, rodeada por fantasmas que erguem "muralhas protetoras" e a presenteiam com falsas seguranças. Existe algo de perturbadoramente familiar nisso tudo: "Then I saw the monsters' tea / How can I win?". A luta não é contra inimigos externos, mas contra a falsa sensação de segurança que nos impede de seguir em frente. É como uma Síndrome de Estocolmo da alma, onde os nossos próprios medos nos aprisionam.
Em termos visuais, a obra representa uma notável semiótica camp. Bebendo da estética de Target Earth (1954) e da ficção da Era Atômica, a capa e o vídeo posicionam outtathisworld não como a mocinha que escapa aos berros, mas sim como a viajante que relaxa em cativeiro. A paleta de verde e azul, mencionada na letra como as cores das paredes e dos nós que ela não consegue desfazer, intensifica essa calma tóxica. Os monstros, tidos como "fofos" e familiares, são metáforas visuais para os hábitos nocivos que aprendemos a apreciar. O caos exterior (luas destruídas, sóis irreais) parece bem menos atrativo do que a estagnação colorida criada pelos alienígenas.
No panteão da música pop cósmica, onde muitos artistas empregam o espaço meramente como um adorno superficial, outtathisworld explora o vazio sideral para expressar suas preocupações com o bem-estar e reina como uma princesa pop espacial. "Joyride (The Monsters)" é uma obra-prima de storytelling pop: com um ritmo dançante, e letras que sabiamente nos recordam que nossos próprios "monstros" podem estar, ironicamente, no controle da situação e nos levar pra fora desse mundo.