| # | Título | Tipo | Streams | |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Single Oficial | 922,609,178 | ||
| 2 | Bronx feat. Hermez | Remix | 34,455,507 |

Em uma de suas composições mais inspiradas, o rapper multipremiado Bronx apresenta "HAMELIN", terceiro single de seu futuro álbum "ÍDOLO". Em sua superfície, a canção apresenta a lenda de um flautista que, por meio da magia, tenta livrar uma cidade europeia de uma infestação de ratos. No entanto, a música vai muito além da simples inspiração em uma lenda. Abaixo dessa camada inicial, há um eu-lírico que mescla o antigo e o novo. São versos típicos do hip-hop, mas aqui apresentados em uma espécie de fúria descontrolada, na qual Bronx aborda o desejo, a morte e sobretudo, as peculiaridades da vida. A letra é extremamente contemporânea e constrói uma lírica real, que se aproxima do mundano. Há uma certa soberba em sua estrutura, como se a composição escancarasse dificuldades, anseios, mentiras, tudo aquilo que não foi dito, as expectativas e a forma como nos posicionamos no mundo. As rimas são afiadas e ditam o tom colérico e obscuro da faixa. O visual, assim como a música, traduz uma sensação de brutalidade. O vermelho, por si só, já causa impacto, mas os elementos vão além disso. O booklet apresenta símbolos que remetem a uma certa religiosidade, enquanto a capa reforça esse tom brutal, como se o rapper estivesse ensanguentado, com destaque especial para suas mãos. Em "HAMELIN", Bronx cria uma obra que pode ser entendida como rap, outrora lenda ou ainda como uma narrativa que explora as lamúrias da vida. É sagaz, feroz e acima de tudo, oferece mais um vislumbre do que Bronx é capaz de entregar, ainda que de forma ácida.

Com “HAMELIN”, apresentado a partir da narrativa do protagonista da lenda de Hamelin, Bronx consegue mergulhar no universo da história ao se aproveitar de palavras que expressam dualidade, antônimos e rimas afiadas. É inegável a habilidade que o artista possui de transportar o ouvinte para o fictício. Liricamente, a faixa não foge do que Bronx já apresentou: rispidez positiva em versos longos, mas nada cansativos. É incrível admirar sua desenvoltura ao impor movimentos sem medo, desde a aceitação do papel de um personagem invejoso e moralmente ambíguo até seu visual sangrento e marcante. O trabalho não foge de sua premissa, passeando por referências e contextos não explorados pela lenda original de Hamelin. Não funciona como um spin-off, mas sim como um “point of view” direto do protagonista do conto. O que foi apresentado até o momento nos deixa ansiosos para ouvir o futuro compilado de sons, que inclui também o single “BERGHAIN”. Não surpreenderia se Bronx garantisse mais uma era aclamada e memorável no cenário do Hip-Hop.

Em 'HAMELIN', Bronx entrega um hip-hop que é puro combate. A faixa opera naquele limite onde a música vira um confronto cara a cara com o ouvinte. A composição se apoia na releitura do Flautista de Hamelin para falar de idolatria, hipnose coletiva e da erosão silenciosa da inocência. Essa releitura, porém, não é unívoca: a letra se abre tanto à visão de quem seguiu a flauta e perdeu o futuro quanto à do próprio Hamelin, agora consciente do que causou e amargurado por suas ações. Não há aqui um narrador tradicional, mas uma voz simbólica e instável, que se apresenta como tudo aquilo que corrói, frustra e ilude. O resultado é um texto que se impõe menos pela agressividade e mais pela lucidez cruel. A decisão de escrever quase toda a letra em primeira pessoa é central para a força da canção. Esse “eu” não é confessional nem autobiográfico, mas uma entidade abstrata que oscila entre vítima e algoz, encarnando vaidade, fracasso, desejo de pertencimento e autoengano. Bronx transforma esses conceitos em imagens cotidianas e reconhecíveis. A roupa cara que promete sentido, o carro em miniatura que nunca será dirigido, o grafite que jamais existiu na quebrada. Cada figura funciona como um pequeno golpe, e o impacto real vem do acúmulo calculado dessas cenas. O refrão sustenta a espinha dorsal da composição. A repetição de “o diabo canta, o som da flauta ecoa” cria uma sensação ritualística, quase hipnótica, reforçando a ideia de sedução coletiva e perda de consciência. Dentro do contexto do álbum ÍDOLO, essa flauta também pode ser lida como o carisma do outro, o sucesso alheio que atrai, incomoda e desperta ressentimento. A imagem final, “no final de tudo você estará sendo roído por ratos”, é seca e definitiva, condensando o conceito de impotência em um fechamento sem concessões, sem catarse, sem redenção. A estrutura da letra revela controle e intenção. O primeiro verso estabelece o campo psicológico, o segundo amplia o comentário social, e a ponte desloca o foco para o terreno moral e afetivo, onde desejo, culpa e contradição se confundem. É nesse momento que o contraste da música realmente bate forte, mas sem parecer forçado ou óbvio. Mesmo sendo uma faixa longa, ela não se perde em repetições; a tensão segura a gente do início ao fim. Dá para sentir um ritmo próprio nas palavras, com pausas que parecem calculadas para dar ainda mais peso a cada imagem. O único 'perigo' de 'Hamelin' é o quanto ela mergulha no escuro. Não tem alívio, não tem esperança, nem aquele pingo de ironia para suavizar o tom. É niilismo puro, sem respiro. Ainda assim, essa escolha parece coerente com a proposta e com o universo fictício que Bronx constrói. A canção não aponta dedos nem funciona como ataque pessoal. Ela observa arquétipos, não indivíduos. “Hamelin” se afirma como uma composição madura, literária e desconfortável, que aposta na densidade simbólica e na honestidade brutal. Um rap que rejeita fórmulas fáceis e demonstra que, quando a escrita é precisa, o incômodo se torna virtude. ㅤ

“HAMELIN”, novo single de Bronx para o álbum ÍDOLO, adota uma atmosfera sombria ao reinterpretar a lenda do Flautista de Hamelin como metáfora para perda da inocência, vaidade e ressentimento. A composição alterna entre a perspectiva da criança atraída pelo som da flauta e a do próprio flautista, criando uma tensão narrativa que conduz toda a faixa. A produção aposta em um Hip-Hop Alternativo que privilegia a ambientação e reforça o peso das imagens evocadas por Bronx. Os versos exploram insegurança, expectativas frustradas e o desconforto de se viver à sombra de algo maior, temas centrais no universo conceitual de ÍDOLO. A atmosfera do single remete naturalmente ao game 'A Plague Tale', referência que surge pela proximidade temática, assim como no jogo, os “ratos” funcionam aqui como símbolo do que corrói de dentro para fora, sempre presente mesmo quando não é visto. Essa associação amplia a leitura e aprofunda o impacto narrativo proposto pela faixa. No conjunto do álbum, “HAMELIN” expande a reflexão sobre o lado obscuro da admiração e da comparação, preservando o caráter ficcional do projeto e evidenciando o cuidado narrativo de Bronx. O resultado é uma faixa concisa, densa e plenamente coerente com o universo que o artista constrói.

Considerando a enorme aclamação da fase Pandemonium e o impacto inesperado do single anterior, "BERGHAIN" -que surpreendeu com a boa recepção, figurando em playlists e até ganhando uma performance no DJ Set de Hurrance Evans, seria esperado que Bronx optasse por uma rota mais convencional. Contudo, ele preferiu o desafio. “Hamelin”, o terceiro lançamento do projeto ÍDOLO, é uma canção que o próprio músico confessa ter demorado a decidir lançar. É uma criação "de confronto", fruto de um processo de escrita onde Bronx só expressa o que está sentindo intensamente no instante da criação. A música se manifesta como uma canção de confronto, porém, seu foco é amplo, quase universal. Versos como "I am the expensive clothes you bought / Thinking it would fill your existential void" impactam como um golpe direto. Bronx transmite uma acidez que, segundo ele, só consegue acessar no momento certo, justificando as interrupções na criação do álbum para manter o frescor criativo. Essa franqueza cortante converte a canção numa análise da inveja contemporânea: o problema óbvio, o "elefante branco na sala". O refrão cativante "The devil sings... and everyone is swaying" é uma crítica à hipnose coletiva da admiração, um ponto que parece ser crucial do novo álbum. A ironia final, "In the end, you'll be gnawed by rats", modifica a história original: os indivíduos não são salvos da peste, são engolidos por ela. É uma réplica cética e vital ao glamour de "BERGHAIN". Se o single anterior o inseriu na nata do pop, "Hamelin" é Bronx relembrando a todos (e a si próprio) que ele segue pronto para o embate. "Hamelin" é uma aposta arriscada para um terceiro single, especialmente sob a pressão de superar um trabalho gigante como Pandemonium. Mas é exatamente essa recusa em amaciar o discurso que justifica a boa avaliação. Bronx não está aqui para tocar a música que você quer ouvir, ele está aqui para tocar a música que vai te levar para fora da cidade, quer você queira ou não. Essa é a temporada das pragas.