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slant publicou uma avaliação em 04/10/2026: 75
Kim Kimbel enfim lançou seu terceiro álbum de estúdio, 'CONTROL', disco com a proposta de descobrir que a melhor maneira de sobreviver à vulnerabilidade pode ser performar sua ausência. Ao longo de suas dez faixas, Kim Kimbel atravessa uma transformação que, em termos narrativos, é bastante simples: alguém se entrega, se decepciona, endurece e finalmente decide que aquilo que antes parecia uma ferida pode funcionar como coroa. Mas o que torna o terceiro álbum da rapper interessante não é exatamente a história que ele conta, mas a maneira como Kimbel deixa essa história deformar sua própria personagem. O álbum começa preocupado com aquilo que permanece depois que uma relação termina: o cheiro na roupa, o corpo que ainda lembra, o celular que pode vibrar a qualquer momento. São imagens de intimidade bastante conhecidas no R&B e no pop, mas Kimbel tem uma compreensão clara de que o verdadeiro conflito não está necessariamente na pessoa perdida. Está na perda de controle sobre si mesma. Em CONTROL, desejo e dependência aparecem quase como sinônimos. A primeira metade do projeto é a mais emocionalmente convincente disso. Kimbel escreve sobre relações incompletas sem tentar transformá-las imediatamente em grandes tragédias. Existe vergonha, tesão, ressentimento e, sobretudo, repetição. A personagem sabe que deveria ir embora mas continua voltando. É justamente essa contradição que impede CONTROL de ser apenas mais um álbum de “empoderamento pós-término”: antes de declarar que não precisa de ninguém, Kimbel admite o quanto precisou. A virada do álbum acontece quando a linguagem muda. O quarto escuro dá lugar ao palco; a memória dá lugar ao status; a pessoa ferida começa a desaparecer atrás da celebridade. A partir daí, Kimbel passa a falar como alguém que não apenas recuperou sua autoestima, mas conquistou uma posição de poder tão absoluta que ninguém mais pode ameaçá-la. A mudança é deliberadamente exagerada. Ela não quer simplesmente superar o ex; quer se tornar inalcançável. Porém, quando o álbum parece encontrar sua ideia mais interessante, simultaneamente esbarra na sua principal barreira. O álbum encontra uma contradição psicológica muito mais interessante do que a que eventualmente decide explorar. No início, a cantora é uma narradora pouco confiável sobre si mesma. Ela sabe que está presa a relações que a ferem, sabe que continua desejando aquilo que deveria abandonar e reconhece que parte de sua própria identidade foi construída em torno dessas relações. Há conflito entre o que ela sabe e o que ainda sente. É justamente essa fricção que dá vida às primeiras músicas. Quando o disco chega à sua segunda metade, porém, essa contradição começa a ser resolvida rápido demais. A personagem deixa de perguntar por que ainda se importa e passa a declarar que não se importa. Deixa de lidar com a própria insegurança e passa a enumerar as razões pelas quais ninguém deveria ser capaz de ameaçá-la. O que inicialmente parecia uma transformação passa a funcionar quase como uma substituição de personalidade: a mulher que sentia demais é trocada pela rapper que precisa demonstrar que sente de menos. Isso torna o projeto menos interessante justamente quando sua produção conceitual deveria estar atingindo o auge. A arrogância de “Domination Mode” e “Crown Talk” poderia funcionar como uma máscara (uma persona tão grandiosa que, por trás dela, ainda fosse possível enxergar a insegurança que a criou). Mas Kimbel raramente deixa essa máscara rachar. Em vez de permitir que a confiança e a vulnerabilidade coexistam, o álbum frequentemente trata a primeira como se fosse a cura definitiva da segunda. O resultado disso é uma espécie de paradoxo: CONTROL é mais convincente quando Kimbel parece estar tentando recuperar o controle do que quando afirma já tê-lo recuperado. Suas declarações de superioridade são divertidas, algumas são genuinamente eficazes, mas tornam-se menos reveladoras quanto mais categóricas ficam. Depois de certo ponto, “eu sou inalcançável” deixa de ser desenvolvimento de personagem e passa a ser apenas reafirmação. Isso também limita o vocabulário emocional do disco. Há uma quantidade enorme de maneiras de dizer que alguém foi ferido e se tornou mais forte, mas o 'CONTROL' eventualmente reduz essa transformação a uma oposição bastante rígida: antes eu era vulnerável; agora sou poderosa. Antes eu precisava de você; agora você precisa de mim. Antes eu sofria; agora você assiste de longe. A ironia é que o próprio álbum oferece uma alternativa muito mais interessante. “Ice Heart” sugere que a frieza não é ausência de sentimento, mas excesso de memória. Essa ideia poderia sustentar todo o segundo ato: uma personagem que conquistou poder sem necessariamente se livrar daquilo que a tornou vulnerável. Em vez disso, CONTROL frequentemente prefere a fantasia mais simples de que superar alguém significa tornar-se superior a essa pessoa. Visualmente o disco não oferece ou apresenta perspectivas que pudessem endossar ou qualificar mais o projeto. Sua capa principal apresenta uma foto com a cantora adornada por aplicações azuis e brancas, com um vestido preto de grande volume que dá a sensação de controle e até superioridade do projeto. Mas é somente isso. Portanto, pode-se dizer que o 'CONTROL' é um álbum de duas personas. A primeira quer ser amada apesar de suas inseguranças; a segunda quer ser admirada justamente porque não demonstra nenhuma. O terceiro álbum da cantora desse modo, não é uma obra especialmente sutil. Às vezes, ele é até orgulhosamente óbvio. Mas há uma diferença entre falta de sutileza e falta de intenção, e 'CONTROL' tem intenção de sobra. Sua transformação de R&B noturno e confessional para rap maximalista e autocoroado é o próprio argumento: algumas pessoas não superam seus antigos "eus"; elas constroem personagens maiores para sobreviver a eles. No fim, Kimbel não parece realmente ter conquistado controle. Ela aprendeu a parecer que tem. .
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