Edição Vogue UK July 2026 — Bronx by Giovanni Zanotto

VOGUE: De um cara com estilo de cowboy se torna Mandrake, momentos passam e só assim se concretiza o sonho e podemos finalmente chama-lo de ÍDOLO. Nessa edição da VOGUE temos a honra e o prazer de ter um papo bastante enriquecedor com esse que é um dos pilares mais sólidos do hip-hop na indústria.

Bronx: Obrigado, sempre uma honra estampar uma capa da Vogue. De tantas, essa é a minha favorita, ansioso por esse bate papo.

VOGUE: Antes de começar a falarmos sobre seu novo álbum me parte uma duvida interessante, dentro de uma carreira que está sempre no alto, como é se manter criativo em meio a pressão que é acerca de manter um ritmo constante?

Bronx: Isso já foi uma questão pra mim em muitos momentos da minha carreira, principalmente no começo quando eu queria muito mostrar quem eu era, mas falando do momento atual, quando a gente começa a pensar só em números, sucesso ou expectativas, a criatividade da uma bugada, ainda mais quando você tem uma carreira gigante como é meu caso. Sempre tento fazer algo que me empolgue primeiro, se eu estiver convencido do que estou fazendo, dai o resto é consequência e hoje em dia prefiro respeitar meu processo, só pra fazer o "ÍDOLO" foram três anos, tenho consciência de que eu teria feito melhor meus primeiros álbuns se eu tivesse a maturidade que tenho hoje.

VOGUE: Entendendo bastante sua visão, eu chego em SKINWALKER, canção essa que vem cercada pela ironia acerca das teorias que são criadas com seu nome. Como você tem levado toda história que é criada sobre você, você sempre levou numa boa ou isso afetou seu processo criativo em algum momento?

Bronx: Hoje em dia não me afeta mais, antes eu ficava meio neurótico, mas agora consigo tirar sarro disso e não me levar tão a sério a ponto de ficar mal com algo que falam, estou nessa indústria há muitos anos, sempre haverá opiniões e essa é a graça, eu também tenho as minhas, ninguém é herói ou vilão nesse mundo, eu adoro essa dualidade que todos nós temos e que a indústria nos permite ter. A última polêmica foi quando vazou o apelido "Papa B" e eu achei genial, virou nome do meu Deluxe, tomei pra mim e se pudesse eu até registraria pois gostei tanto que tenho ciúmes quando trocam a letra "B" pra usarem outras pessoas. (risos).



VOGUE: Saindo um pouco desse momento irônico, você finalmente chega as pistas de dança, um pouco ousado se pararmos para pensar que talvez o hip-hop não seja diretamente ligado as baladas. Então BERGHAIN se torna um sucesso absoluto por conta desse experimento, visto que você também ingressou em baladas por todo o globo terrestre a fim de divulgar a canção. Pensando nisso, qual é sua relação com a música dançante e tendo esses dois gostos do ÍDOLO, qual relação podemos tirar entre elas?

Bronx: A eletrônica entrou na minha carreira lá atrás, quando eu trouxe o estilo garage em "AWESOME", que é uma vertente do hip hop que flerta com esse universo e foi criada no Reino Unido, mesmo depois eu acabando por ter me afastado sempre foi um mundo na qual eu sou alucinado e a forma como há diferentes formas dentro desse gêneros e diferentes tribos e mecas me deixa fascinado. Quando fui fazer o "ÍDOLO" desde o começo eu sabia que queria explorar mais esse mundo, então me inspirei na Berghain, que é o clube mais exclusivo do mundo e há diversas teorias sobre o local, dai fui desenvolvendo, ele apesar de ser dividido em duas partes, você percebe que há sintetizadores em todas as faixas, então até mesmo nas de trap há um resquício da música eletrônica. E também há o fato de eu não ver o hip hop e o eletrônico como opostos, ambos vieram de lugares onde quem os fazia era para encontrar na música uma forma de se expressar, diferente de outros gêneros que eram aceitos e tocavam direto nas rádios, se você pegar a história desses, verá que a resistência foi bem grande e ambos precisaram provar seu ponto muitas vezes pra serem levados a sério.

VOGUE: Finalmente chegamos ao lançamento do ÍDOLO, sendo assim com dois singles de sucesso, o que é interessante que mesmo com a carreira tão solida e continua ainda sim há espaço para se ter novas primeiras vezes. Você alcançou o topo das paradas com seu álbum e juntamente disso alcançou o topo simultaneamente com o single com a excepcional Anneliese. De onde nasce essa parceria, digamos, inusitada?

Bronx: Pra mim ela é e sempre será magnífica, sempre fui um grande fã, sempre a observei se longe e era um desejo meu fazer algo grande com ela, mas tinha que ser a música certa. Apresentei a ela "NIGHTBLINDNESS" e ela amou de cara e então começamos a desenvolver a letra. Foi até rápido, eu tinha a faixa pronta meses antes do álbum sair e saber que o single foi #1 e tão bem aceita pelo público me deixa feliz, é a minha forma de retribuir e ser sempre grato a gentileza dela de estar nessa música e meu maior desejo atual é apresentar a faixa ao vivo com ela em algum momento.

VOGUE: No compilado de 18 canções, algumas tem narrativas que apesar de simples, não soam de tal forma e num álbum extenso, conseguir falar de tantas coisas com tamanha densidade é de invejar. Apesar dos elogios, ainda sinto a necessidade de entender um pouco mais sobre o processo criativo. No CD, a faixa KHIA ASYLUMN me chama a atenção por conta de sua narrativa, ela fala do sentimento de que querer se algo, mas não conseguir, estar quase lá. Você já se sentiu nesse momento de estar quase lá, na construção da faixa o que te inspirou de fato?

Bronx: No começo da minha carreira sim, com certeza. Tive trabalhos incríveis que perdeu pra artistas bem ruins da época, rappers que não sobreviveram ao tempo, por exemplo, mas essa faixa não foi feita por esse motivo, ela é muito da minha visão de como a indústria funciona não só com novos artistas, mas pra quem está nessa luta faz tempo e como ela é ingrata com quem chega lá, consegue um destaque, e vem um efeito manada de quem já está e não quer dividir o holofote, essa foi uma das inspirações. Outra foi também quando a indústria recebeu uma nova leva de artistas, muitos já chegaram ambiciosos demais, dentro deles mesmo vi puxação de tapete, vi rejeição... é uma faixa sobre a idolatria da validação, sabe, do pertencimento, da insuficiência... É esse caminho aí.



VOGUE: Você é muito amado e querido principalmente pelos novos artistas, muitos te chamam de pai e você os apadrinha de forma muito interessante. Como é o sentimento de estar sendo abraçado pelas novas gerações de artistas e qual o conselho mais valioso que você costuma deixar para esses cantores?

Bronx: Eu adoro, sempre estive aqui para eles e isso não é de agora, sempre abracei a nova geração sem esperar absolutamente nada em troca e sempre irei abraça-los, são meus filhos. É o que sempre falo, quem é de verdade sempre fica, sempre é lembrado e sempre é bem quisto e o conselho é justamente esse, sejam verdadeiros sempre, essa indústria não sobrevive quem é um personagem, pois todo mundo sabe quando você é fake, conselho de quem está nela há 8 anos (off).

VOGUE: Dentro do compilado, lá perto da última faixa tem uma musica um tanto quanto polemica chamada I HATE MODELS, nela você utilizada do machismo, fetichização e outros artifícios do imaginário masculino para exemplificar a idolatria algumas vezes doentia dos homens com as mulheres. Nela você cita também diversas artistas que fizeram parte da sua trajetória, algumas de forma mais vulgar, outras de formas mais eufemística. Bom, lançar uma canção como essa exige um tanto de "culhão" e como você se porta para ter "culhão" para a forma que talvez um publico mais inflamado receba essa canção?

Bronx: Essa é uma das minhas favoritas e ela é sobre o universo masculino, todo homem faz isso e eu acho que todas no fundo amaram ser citadas (risos), publicidade de graça nunca é ruim, né. Ela é o que é, bem baixo nível mesmo, bem "old bronx", sempre gostei muito de faixas hiper sexualizadas, eu mesmo me sexualizo bastante, isso não é um problema pra mim. Eu sou um homem bonito, safado e atraente, então deixe eu usar minhas armas. (risos).

VOGUE: Na faixa de encerramento do álbum tem um verso que me soa bastante interessante, nele você diz "Seu eu relaxar, vou quebrar?". Você sente que no patamar que se encontra é possível ainda sim criar coisas com espontaneidade ou você acha que os cálculos e pensar meticulosamente em como será faz parte do que é ser artistas?

Bronx: Essa frase da música é muito boa porque ela é o que me representava no passado, eu tinha uma necessidade imensa de me fazer ser visto porque eu acreditava que senão eu ia ficar para trás. A maturidade me fez entender e trabalhar muito nessa questão, hoje em dia eu me permito relaxar muito mais, eu entendo a força do meu nome e o tamanho da minha carreira e sei que meu trabalho será consumido e me desprender de divulgações extensivas, buzz a todo momento e estar em todos os lugares não é mais preciso, hoje estou reposicionando minha carreira para coisas mais exclusivas, por exemplo, eu não aceito mais remixes e hoje em dia quero buscar parcerias que façam sentido, mas isso não significa que entrei numa bolha blasé ou é superioridade, ainda sou bastante sorrateiro e eu amo minha essência.



VOGUE: Bom, partindo para outro ponto do processo criativo do álbum, desde BERGHAIN é possível ver um Bronx que ousa um pouco mais no que vestir, agora o óculos de grau faz parte da persona, o streetwear cada vez mais presente com um toque de glamour. No booklet do ÍDOLO encontramos casacos de pele, cordões megalomaníacos. Você sente que de alguma forma a sua ida a clubes, boates e festas te ajudaram a construir um pouco essa narrativa visual de sua era? E como é a sua relação com a moda hoje em dia visto que a moda anteriormente não era talvez o ponto de maior destaque da sua carreira.

Bronx: Minha relação com a moda é muitos acertos e erros (risos). Eu sempre quis um estilo único e misturava muita coisa ou então vestia coisas que não tinham lá a vibe das músicas que eu cantava. Isso mudou desde que contratei um personal stylist que tem a mesma idade que a minha, que transita pelo mesmo universo que o meu e me fez entender e a enxergar meu estilo sem cometer mais gafes. Buscamos referências dentro da cena em que faça sentido também com quem eu sou, um exemplo bobo, odeio cores claras sem ser o branco, então raramente trabalhamos com peças assim, as marcas também estão alinhadas a isso, trabalhei com a Prada e Balenciaga recentemente e atualmente sou embaixador da Dior, fizemos um trabalho de unir o luxo das passarelas com os da rua, afinal, todo homem independente de onde ele esteja é vaidoso e gosta de se sentir bonito e já nos clubes encontrei os óculos escuros que é algo que hoje em dia está muito presente em shows e apresentações.

VOGUE: Finalizando agora com a nossa última pergunta, eu estive me perguntando e pensando o que torna o Bronx o Bronx. Se em Mandrake você ostentava a luxuria agora após vencer álbum do ano você é imponente apenas por estar, então em meios a tantos nomes que foram e que ainda permanecem o que faz o Bronx ser o Bronx?

Bronx: É que o "Bronx" nunca tenta ou tentou ser o próximo alguém, ele sempre foi autêntico, carismático e verdadeiro com a arte dele, com o que ele canta e isso é fundamental. O que eu faço somente eu posso fazer, você vê meus trabalhos e automaticamente pensa "isso é o bronx que fez", minhas músicas não soam iguais ou parecidas com o de mais ninguém e funcionam comigo as cantando. A chave é essa, sempre faço trabalhos que soam comigo mesmo e não um em que qualquer um pode fazer, há milhares de trabalhos por aí que você lê e não identifica de que é porque qualquer um pode fazer, entende? e isso se dá pela credibilidade artística que eu construí durante toda a minha carreira, esse é meu legado e ninguém pode tirar.



Publicado em 26/07/2026 por VOGUE.

Comentários

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Bronx
Obrigado por tudo e tanto, Vogue! Sempre uma honra.
Marie Vaccari
Uma bicha safada que arrasa no rap!
LEXIE
musa fofah, arrasou
Helenna
Deuso
Suzy
papa
Kian
????????????????????????????????
Maggie Morris
rei, te amo!
Charli B
É o Rei do Rap mesmo!
Song Hyun-woo
Te amo pai
Charli B
É o Rei do Rap mesmo!
Penelope
o maior do rap !