Com Schizophonic, Alex Fleming abandona antigas certezas, enfrenta as regras da indústria e fala sobre solidão, confiança e a liberdade de não saber o que vem depois.

Escolher a palavra “alívio” para descrever o momento mais movimentado de sua carreira.
Schizophonic, seu novo álbum, acaba de chegar ao mundo envolto na promessa de apresentar um “novo Alex”: mais dançante, mais pop, mais seguro e, talvez principalmente, menos preocupado em caber no espaço que a indústria reservou para ele. Mas, conforme a conversa avança, fica evidente que essa reinvenção não aconteceu apenas dentro do estúdio. Ela parece ter ocorrido também na maneira como Fleming olha para tudo ao seu redor: a fama, os prêmios, os amigos, os desafetos e a própria solidão.
“Agora eu finalmente me sinto seguro”, ele diz em determinado momento.
É uma frase simples, mas particularmente curiosa vindo de alguém que, nas horas seguintes, falará sobre ter sido ridicularizado pelo próprio corpo, sobre relações construídas por conveniência, sobre uma indústria que considera excessivamente confortável com suas próprias regras e sobre o fim de uma amizade que descreve como a perda de um irmão. Segurança, para Fleming, aparentemente não significa que as feridas desapareceram. Significa que ele não sente mais necessidade de escondê-las.
Esse contraste está por toda parte em Schizophonic. É um disco concebido entre euforia e introspecção, no qual sintetizadores, Dance-Pop e R&B convivem com ressentimento, desejo, humor e algumas das letras mais explicitamente desconfiadas de sua carreira. Em músicas como “Ivory Tower”, “In-Between” e “Heresy”, Fleming transforma experiências que antes poderiam permanecer em conversas privadas em combustível para sua persona pública, às vezes vulnerável, às vezes provocador e, em outras, deliberadamente ácido.
Mas seria um erro tratar esse momento apenas como uma revanche.
Às portas de uma nova turnê, com uma passagem pelo Rock in Rio e Stuart Price assumindo a direção musical de seus próximos shows, Fleming parece mais interessado em descobrir o que ainda pode fazer do que em provar o que já fez. Ele fala sobre gêneros musicais como territórios a serem explorados, rejeita a ideia de que números sejam capazes de determinar sozinhos o impacto de uma obra e defende uma carreira em que mudar de direção não precise ser tratado como uma crise de identidade.
Talvez seja justamente esse o significado real por trás de The New Alex.
Não existe exatamente um homem novo do outro lado de Schizophonic. Existe o mesmo artista, só que menos disposto a pedir licença.
Nesta conversa com a Rolling Stone, Alex Fleming fala sobre o lançamento de seu álbum mais imprevisível, as barreiras que encontrou ao entrar no Dance-Pop, o jogo de interesses por trás da indústria, os comentários sobre seu corpo que nunca esqueceu, sua relação cada vez mais complicada com confiança e amizade, o afastamento de Noan Ray, sua vida amorosa sob escrutínio e o futuro de uma carreira que, pela primeira vez em algum tempo, ele parece determinado a deixar completamente em aberto.

RS: Alex, é um prazer falar com você hoje. Com um álbum novo nas pistas, projetos a todo vapor… me diz: como anda a sua mente diante tudo isso?
Alex: Nossa… eu me sinto bem aliviado. Não tive a oportunidade de falar com alguém sobre a sensação de alívio e realização, talvez todos estejam ocupados ou apenas entediados de mim, mas eu estou realmente feliz em ter o ‘Schizophonic’ finalmente lançado. No meio disso tudo vieram feats maravilhosos também e eu só tenho a agradecer
RS: Talvez o que mais marca esse lançamento seja o marketing em torno de um “novo Alex”. Pode nos contar o que você quer dizer com isso?
Alex: É basicamente uma celebração de tentar e conquistar o novo. Nesse álbum, exploro pela primeira vez na íntegra gêneros como o Dance, Pop e R&B e faço isso com letras que eu sinto que ressoam com a fase atual da minha vida. O que quero dizer? Vocês podem ouvir minhas músicas e interpretar o que quiser, mas que algo fique claro: agora eu finalmente me sinto seguro.

RS: Você enfrentou uma certa resistência ao adentrar a cena Dance/Pop. O carro-chefe do seu álbum foi um dos seus primeiros singles a não receber prêmios que já pareciam “rotina”. O que você pensa sobre isso?
Alex: Eu sinto que um erro crônico nessa indústria é querer colocar artistas pertencentes a apenas um gênero. Na minha visão, em minha carreira, me manter fazendo apenas um tipo de gênero musical por anos não seria proveitoso para o que quero experimentar. Quando iniciei trabalhos no Rock, fui deixado de lado de início mas persisti e consegui um bom destaque, mas quando fui ao Dance-Pop… sinto que a barreira a ser quebrada foi ainda maior. E, sinceramente? Entediante *risos*. Às vezes é como se as pessoas por trás da parte executiva amassem estar presas a seguir o mesmo script todos os anos. Não acho que isso passe a vibe de uma indústria livre, diga-se de passagem.

RS: Já que você falou sobre a indústria em si, “Ivory Tower” parece falar um pouco sobre o que você mencionou. Em um verso, você diz: “Eu esqueci o significado de ser aplaudido / Porque tudo o que vejo são abutres sendo coroados”. Tendo isso em mente, pode nos explicar esse fragmento?
Alex: Aqui eu reconheço que tive privilégios e que recebi bastante reconhecimento, mas eu tomo as dores de outros amigos que trazem coisas positivas; sejam composições, visuais, marketing, mas são deixados de lado para o protagonismo do “confortável” tomar conta do saldo final. Mas pra mim o pior é quando o “confortável” é inegavelmente o certo, mas eles invertem o significado. É tudo que quero dizer.
RS: Continuando a falar do disco, vamos falar sobre outra canção do álbum: “In-Between” fala sobre uma “amizade movida por interesses”, como dito por você previamente no sobre. Você sente que amizades são movidas por interesses aqui, em sua maioria?
Alex: Acho que, nesse tópico, não é uma totalidade. Existem sim pessoas aqui que se engrandecem com a arte dos seus colegas, e sinceramente essa sempre foi a minha intenção: compartilhar, evoluir e ver a evolução dos outros. Mas também existem pessoas que tornam um ambiente que deveria ser movido por expressão e criatividade como um circo, ou melhor: como um jogo de interesses sujo. Todos sabemos que todos temos ego, eu mesmo tenho o meu e não posso negar, mas será que vale a pena nutrir vínculos apenas para no final ganhar um pouco de atenção, ou um benefício? Fica aí o meu questionamento, by the way…

RS: Você já está na indústria há anos e, como disse anteriormente, presenciou muita arte. Pode citar alguns artistas que te marcaram desde o início até o presente momento?
Alex: Sinto que cada um que está ativo vem trazendo bons trabalhos. Mas se eu tiver que citar 7 nomes: Kadu, Tessa, Sana, Stelar, MOE e Hurrance Evans e Alec Weaver.
RS: “Schizophonic” é descrito como uma mesclagem entre a introspecção e a euforia. O que te fez fomentar o disco nesse sentido?
Alex: Eu diria que eu segui o fluxo da minha mente. Abracei momentos altos e baixos, influências diversas e decidi não seguir um caminho tão convencional. Existem músicas no disco mais picantes, outras shady, outras mais amorosas e outras… agridoces. Acho que a magia de compor um disco é criar um universo pra ele que outras pessoas não conseguiriam replicar.

RS: Você é um artista que esteve envolvido em diversos trabalhos com produções executivas de sucesso, como “THE PAGAN MIRACLE” de Alec Weaver, “BEDROOM DRAMA” de Noan Ray e “Nemo” de Asha. Você sente que números comerciais tornam um disco impactante?
Alex: Sucesso comercial é apenas uma das diversas métricas. Existem projetos que quebraram recordes mas que isso não foi traduzido em sucesso crítico (como prêmios), ou até mesmo trabalhos comercialmente mais medianos (como hyperemotional, da Asha, que foi a produção executiva que fiz na V9), que simplesmente ganhou um Song of the Year no GRAMMYs. Pra mim, tudo deve ter um equilíbrio. Nick Diaz teve um projeto que não alcançou o topo dos charts e não alcançou 90 pontos no FCritic, mas… ganhou diversos prêmios renomados. Às vezes, acreditar no seu trabalho é a chave; pra que se fincar em números se você não acredita na mensagem do seu próprio trabalho?

RS: Com todos esses anos de exposição, existe algo que te incomodou e você nunca explicitou?
Alex: Já que você perguntou… com certeza os comentários sobre o meu corpo. Logo no início da minha carreira, vi com meus próprios olhos pessoas inferindo coisas sobre a minha aparência ou sobre a forma que eu me portava. Acho que isso foi o ponto mais baixo que esse roleplay chegou pra mim. Até mesmo uma das pessoas que mais me auxiliou estava ali destilando comentários sobre mim nesse sentido. Pessoas que achavam engraçado compartilhar fotos minhas do meu antigo perfil para fazer piadas de mal gosto e, no fim do dia, compartilhar mensagens de compaixão ou de arrependimento fajutos. Pessoas que até hoje tentam proximidade ou que simplesmente não escondem o descontentamento com a minha presença aqui; seja como jogador, seja como simples usuário. Em “Heresy” eu cito isso nas entrelinhas. Caso você ler parte do primeiro verso atentamente, vai entender o que quero dizer.
RS: Visto a natureza psíquica do seu disco e também de seus antecessores… você sente que tem amigos ou pessoas de confiança ao seu lado?
Alex: Eu cresci e me desenvolvi como criança, adolescente e - posteriormente - adulto, para ser sozinho e autossuficiente. Eu amo interagir, rir com as outras pessoas e compartilhar experiências… mas, quando estou compondo, quando estou em casa ou tocando um show sold out em um estádio… não sinto que tenho uma pessoa que sente o mesmo ao meu lado. Sabe quando você sente que ninguém nunca vai te entender? Esse sentimento ainda consome meu peito. Mas não de uma forma dramática ou melancólica, e sim como um alento. Existem pessoas que gosto, que me divirto, que crio, que converso… mas nunca me senti visto por elas. Talvez a única pessoa que tenha sentido isso tenha sido o Noan Ray, mas creio que isso vá chocar um pouco: na reta final do desenvolvimento do meu álbum, nos afastamos definitivamente. Desde aquele momento, não me sinto mais confortável para coexistir na indústria. Foi como perder um irmão. Criamos coisas lindas juntos, mas nem sempre decisões são tomadas pelos dois. Então não, não sinto que, no fim do dia, posso devidamente confiar em alguém. Talvez ninguém possa.

RS: Você vai iniciar uma nova turnê, e tem show marcado no palco do Rock in Rio em Setembro. Você adiou o início de Agosto para o fim de Outubro, como você me disse anteriormente. Sente-se preparado para cantar essas músicas? Teremos faixas mais desconhecidas, ou deep-cuts?
Alex: A setlist do Rock in Rio vai celebrar mais o meu novo álbum e o “STAR”, enquanto o show da turnê trará novas roupagens a faixas mais antigas e também focará no novo disco. Eu sinto que essa será uma forma de trazer ao público músicas que eu amo. Acho que vai ser divertido e necessário para me reconectar. Estou trabalhando com coreógrafos e dançarinos novos, Stuart Price será o Diretor Musical da turnê e isso pode dizer bastante sobre o que quero pra ela.

RS: Você agora mantém sua vida pessoal mais privada. Seu relacionamento com Emily Beer foi a público pouco tempo depois do fim do seu último relacionamento. Sente que as pessoas especulam demais sobre a natureza da suas conexões?
Alex: Demais. E eu não posso reclamar tanto. Eu não fui muito coeso no passado, talvez tenha dado abertura a pessoas erradas diante o que sinto e o que me dá prazer. Mas sabe o que eu faço melhor? Vender esses estereótipos e essas piadas. “Heresy” é talvez a parte mais divertida. Pessoas duvidando da minha sexualidade, ou de quem sou, ou da minha natureza. O melhor é ganhar dinheiro em cima disso e gozar da minha vida com sabedoria.
RS: Finalizando a sua entrevista: o que você sente que define o seu futuro a partir de agora?
Alex: O meu futuro, na minha mente, é uma incógnita. Será que daqui há uns meses vocês vão ter outro disco meu? Ou melhor… como alguns impedosos dizem, um flood? Não posso dar a resposta. Acho que ser criativo e ter um fluxo de pensamentos tão grande tem o seu preço: ridicularização. E talvez eu já tenha cansado de ouvir isso.
