Vogue Brasil Setembro 2026 — Mallone por Gizelle Hernandez

VOGUE: Olá, querida Mallone! Seja bem-vinda à revista VOGUE, é um prazer imenso recebê-la. Como você está se sentindo neste momento?
Mallone: Olá Vogue, é uma enorme satisfação receber vocês. Estou muito feliz, acho que essa é a melhor palavra para definir o momento.
VOGUE: Querida Mallone, você acaba de apresentar ao público o seu novo EP, “AURUM”. O que despertou em você a vontade de transformar esse projeto em um EP, e não em um álbum completo?
Mallone: Acho que “AURUM” precisava ser exatamente do tamanho que é. Admito que passei tempo demais cogitando encher ele de faixas por algumas pessoas a minha volta considerar EP como uma forma de descartar singles e como assim eu iria descartar tantos #1's, mas felizmente desistir disso. Para mim, cada faixa precisava justificar a própria existência e conversar com as outras. O EP acabou permitindo uma narrativa mais concentrada.
VOGUE: “AURUM” passou por diferentes escolhas criativas até chegar à versão que conhecemos hoje. O que você considera mais trabalhoso nos bastidores da construção desse projeto?
Mallone: Sem dúvidas saber o que tirar, essa foi a parte mais difícil. Criar é muito prazeroso porque você está constantemente tendo ideias, mas isso traz o problema que é você perceber que nem toda ideia precisa chegar ao público. Houve músicas, conceitos, imagens e até versões inteiras de determinadas coisas que eu amava, mas que não serviam para a história que eu queria contar. Às vezes você precisa matar algumas ideias para que o projeto consiga respirar, e isso dói um pouquinho. (risos) Mas hoje eu entendo que editar também é criar.

VOGUE: Você já comentou sobre algumas escolhas que, mesmo depois de tomadas, ainda deixaram você insegura. Como foi lidar com essas dúvidas enquanto precisava continuar acreditando no projeto?
Mallone: Foi difícil porque eu sou uma pessoa que pensa muito depois que toma uma decisão. Às vezes eu consigo passar meses construindo alguma coisa e, quando ela finalmente está pronta, surge aquela voz dizendo: “Será que era isso mesmo?”, "Será que essa é de fato a minha visão ou uma projeção do que querem?". Mas eu aprendi que insegurança não significa necessariamente que você tomou a decisão errada, pode ser apenas que aquela decisão importa para você. Eu precisei aprender a confiar mais na minha própria voz. Não deixar de questionar, mas entender o momento em que você precisa parar de perguntar “e se?” e simplesmente dizer: “É isso.”
VOGUE: Existe alguma decisão criativa em “AURUM” que hoje você olha de uma maneira diferente daquela que olhava quando começou a trabalhar no EP?
Mallone: Sim. No começo, eu queria provar muita coisa. Queria que cada letra soasse super musical na produção do áudio, que toda letra tivesse várias referências, metáforas e que ainda assim fosse fácil da massa compreender. Com o tempo, comecei a perceber que algumas das coisas mais fortes em “AURUM” acontecem justamente quando eu não estou tentando impressionar ninguém. Uma voz mais exposta, uma frase simples, um espaço na produção, uma imagem que não precisa explicar tudo, e acredito que essa mudança de ideia me deu mais coragem de deixar as coisas existirem sem precisar poldar minhas ideias.

VOGUE: O título “AURUM” carrega uma ideia muito forte de valor, transformação e identidade. O que esse nome representa para você dentro do projeto?
Mallone: “Aurum” é ouro em latim, e eu gosto muito da ideia de que ouro não é apenas uma coisa brilhante e bonita. É algo que atravessa o tempo, pode ser derretido, moldado e continuar sendo ouro. Isso conversa muito comigo e com minhas raízes, mesmo que eu tenha ido para longe elas ainda são partes importantes de mim e sempre serão a parte mais valiosa. “AURUM” representa entender esse valor que no meu caso foi entender e me indentificar novamente denovo com a minha regionalidade ancestral.
VOGUE: Ao longo da criação, você sentiu que “AURUM” acabou revelando alguma coisa sobre você como artista que não estava necessariamente planejada no início?
Mallone: Com certeza. Eu descobri que sou muito mais impulsiva do que imaginava. (risos) E de uma forma boa, sempre tive uma preocupação natural com oq eu ia por nas letras, mas no EP me percebi mais livre e menos presa em soar recomendada para todas as idades, acho que quando a música realmente importa para mim, eu não consigo me esconder atrás dessas algemas. Eu não quero ser uma artista que parece perfeita o tempo inteiro, quero ser uma artista que parece verdadeira.
VOGUE: A moda também tem um papel importante na construção da sua imagem pública. Como suas escolhas visuais conversam com a identidade e o universo de “AURUM”?
Mallone: Para mim, música e moda sempre estiveram muito próximas. Eu não penso no figurino como uma coisa que simplesmente vem depois da música, elas fazem parte da narrativa. Neste trabalho existe muito essa tensão entre o precioso e o imperfeito. O sofisticado e o sensual. O delicado e o poderoso. Eu aproveitei disso para misturar peças mais estruturadas com elementos que trazem movimento, trabalhar silhuetas fortes e, ao mesmo tempo, deixar espaço para uma certa vulnerabilidade com rendas, cores claras e algo que fiz inconscientemente e quando percebi seguir foi a ideia de que o dourado não precisa aparecer literalmente em tudo, às vezes “ouro” está na textura, na iluminação, nos acessórios, no olhar e não precisou ser uma roupa dourada da cabeça aos pés. (risos)

VOGUE: Sabemos que a era ainda está em desenvolvimento. O que você pode adiantar sobre os próximos passos sem revelar demais?
Mallone: Neste ano me manterei focada em Nocturnidad tour e na promoção do EP e dos dois single que saíram dele, mesmo sendo um trabalho novo, ele vem precedido por bastante singles então não pretendo lançar remix e versões. E fora dele sigo anotando ideias, escrevendo letras, produzindo sons, mas não pretendo lançar por tão cedo, estou na fase de experimentações sem me prender ao que vai sair.
VOGUE: Olhando para o futuro agora, quando você pensa em suas vontades e conquistas, o que mais te empolga nesta nova etapa da sua carreira?
Mallone: A possibilidade de continuar atingindo novas gerações sem precisar me repetir. Eu quero fazer shows maiores, conhecer lugares onde nunca estive, trabalhar com artistas que admiro, experimentar outros idiomas, outras sonoridades, outras formas de contar histórias. Quero construir uma carreira que tenha diferentes capítulos, mas que, quando você olha para todos eles juntos, ainda reconheça a mesma pessoa. E essa é a maior conquista que eu desejo: chegar daqui a muitos anos e olhar para trás sem sentir que precisei abandonar nenhuma versão de mim para chegar até onde cheguei.