
Rolling Stone 85
Descrito como o álbum mais polêmico da artista, J.Olly lançou “utopian-fucking society” — LP composto por 13 faixas. A primeira delas, “judgement” aborda assuntos bem delicados relacionados a mulher e sua imagem na sociedade. Ela possui bons versos e um refrão bem envolvente, e consegue captar bem a mensagem e iniciar o disco num geral. “afterdeath” lida com a hipocrisia e a falsidade, aqui usando de uma situação onde J.Olly estava “morta” e conseguiu observar essa hipocrisia nos olhos e nas ações de outras pessoas em seu velório. É uma faixa bem composta, mas se estende demais em certos pontos desnecessariamente. “utopian-fucking society” inverte os papéis e entrega uma canção que traz o “racismo reverso” e outras inversões do que é visto na sociedade atual, usando dessa inversão feita pela artista para criticar a verdadeira realidade em outros versos. É uma canção muito boa, e é muito bem construída pela artista. “immature” traz a imagem de um homem imaturo, que não sente remorso sobre as suas ações danosas e todas as suas relações construídas. É uma faixa boa, com uma boa construção e versos bem colocados. “masterful utopia” em parceria com Bronx entrega uma faixa que referencia a “utopia reversa”, aqui sendo mais referida a parte religiosa. Os versos são bem construídos, e o verso de Bronx e a ponte dele traz uma parte interessante da narrativa ao single. “ineverblasphemed” fala sobre a blasfêmia, o “pecado imperdoável”, e aqui J.Olly faz confissões e mostra a dualidade entre o que ela sente e o que a religião é. É uma faixa interessante e muito bem desenvolvida. “replica” fala sobre como criar uma réplica de você mesmo pode ser algo danoso, dividindo-se em cada camada se sua vida por visões de outros, e aqui deixando sua integridade e sua própria identidade no jogo. É definitivamente um highlight no projeto, sendo uma canção muito bem composta pela artista. “silk lick (interlude)” e “faction” em parceria com Asha adentram uma parte mais dançante e descontraída do projeto, mas sem abandonar as críticas sociais. Aqui é abordado o poder feminino e a forma ainda de uma facção para lidar com o que as mulheres passam diariamente na sociedade. É uma canção extensa e bem descritiva, e a vibe dançante é algo que agrega bastante a ela. Asha também traz contribuições muito boas ao projeto. “girls-eat money”, em parceria com Jackie e Remy C, mostra mulheres desprendidas de homens e que vivem e mantém seus desejos em si mesmas. É uma faixa bem divertida e com boas referências, e as três entregam muito bem suas contribuições no projeto. “unity” cita como a união da família da artista foi capaz de fazer com que eles conseguissem ultrapassar as dificuldades que o racismo colocava em seus caminhos, e como hoje em dia eles podem ver isso, mantendo sua luta e sempre lutando contra essa injustiça. É uma faixa bem composta e com bons pontos, sendo bem colocada no projeto. “alien” em parceria com Balk traz o mundo alienígena e situações mais fantasiosas relacionadas às pessoas. É uma faixa bem interessante, mas cai em certos clichês e fica meio deslocada no projeto em relação as outras faixas. “the bride” em parceria com Dallas finaliza o projeto com muito sentimentalismo. É uma canção que aborda o fim do relacionamento das duas artistas e a forma como tudo isso foi doloroso para as duas. É uma canção interessante e que mostra um lado bem bonito das duas. O visual produzido por CAIO e TAMMY é muito confuso e não parece ter uma conexão muito boa ao projeto. Além do efeito granulado extremamente desnecessário, as páginas parecem ter uma lógica de edição muito aleatória, sem uma coesão entre elas, sendo então algo que o projeto peca bastante. Num geral, “utopian-fucking society” é um disco muito interessante e com pontos altos, mas seu âmbito visual acaba sendo algo que puxa bastante do seu brilho.

Pitchfork 83
utopian-fucking society é o nome do álbum de estúdio da cantora africana J.Olly, lançado em 18 de Agosto de 2022, contendo colaborações com Bronz, Remy C, Jackie, Asha, Balk e Dallas, tendo como gêneros o Hip-hop, Pop e o Soul. J.Olly inicia sua caminhada nesse disco com a faixa judgment, e que maestria e cuidado, a track musicaliza a dor e a dificuldade da mulher ser quem veio pra ser num mundo movido ao machismo e ao feminicídio, incluindo metáforas interessantes à Chapeuzinho Vermelho e todo o seu conceitual significado das obras literárias do terror. Mais a frente, a colaboração entre Bronz e J.Olly chega com um grande troféu de ouro, pois é uma das melhores que o álbum entrega. O refrão é surreal, uma crítica a família tradicional brasileira e suas nuances perversas, satirizando a imagem de Deus e discrepando a imagem entre céu e inferno. Seguindo a estética religiosa, J.Olly canta em ineverblasphemed sobre uma segunda chance que nunca será dada a ela, por que ela nunca pecou em relação a esse ato infernal, porém, o apresentado durante a canção é exatamente o oposto, jogada plausível da compositora ao dizer em momento da letra que só respeita a visão dessa divindade em momentos de dor, e a esquece em momentos de glória. A colaboração entre Asha e J.Olly, a feminista faction, é majoritariamente clichê e infelizmente sem graça, é bem previsível cada linha por conseguinte citada e friamente idealizada. Talvez, fala sobre a força das mulheres tenha se tornado comum demais, e aqui algo a mais poderia ser adicionada para abrilhantar a obra. A canção girls-eat money tinha tudo pra ser a mais comercial do álbum, o que pode realmente ser uma realidade, mas a letra que a expectativa era de pura ostentação, entrega biografia e muito alto-astral. J.Olly, Jackie e Remy C se unem na faixa mais instigante do utopian-fucking society. Depois do alto teor enérgico e militante que o que foi ouvido anteriormente entrega, alien, parceria com Balk ameniza o estado de choque para uma balada que une desabafo e a saideira de uma festa à indignação do mundo, sendo colocada numa ótima posição na tracklist, não sendo grandiosa em sua letra, mas cumpre o que se propõe. A produção fica por parte de Caio, Tammy e J.Olly, e esse visual carrega o design mosaico em sua parte mais chamativa, toda em preto e branco, com uma textura sem qualidade e alguns recortes sem acabamento, tipografia delicada e gótica ao mesmo tempo, adicionando comentários a falta de contraste que deixa o ar estético mais fino. Pontos fortes e fracas tendem a serem interpretados na visualização de todo o booklet, que no final, resulta em algo bem palatável. J.Olly, portanto, lança um carta de manifesto ao mundo, fãs e crítica, sem medo do que vão dizer, escorregando em maneiras de dizer e cantando em seus raps a venenosa e dura realidade.