HYO lança o lead single, intitulado “Clueless”, de seu próximo álbum de estúdio. A narrativa nos apresenta uma faixa pop com leveza consciente. Não se trata de ingenuidade, mas de uma escolha estética, onde o artista opta por brincar com o próprio desejo, rir da própria negação e transformar a vulnerabilidade em motor pop.
Em sua abertura, a faixa traz uma breve intro, na qual o eu-lírico já assume a contradição central da narrativa, entoando em seus versos uma sutil ironia.
Logo após, temos a primeira estrofe do single, momento em que o artista sino-coreano constrói a personagem principal de sua narrativa. “Clueless” se revela como uma faixa teen-pop contemporânea, na qual HYO se mostra alguém que performa frieza enquanto deseja. A mistura do humor com a sensualidade na construção lírica até aqui é bastante inteligente, fazendo o ouvinte mergulhar no universo que a artista cria em seus versos.
Ao chegar ao refrão, o eu-lírico confessa que finge controle enquanto já está capturado. HYO, em todas as suas frases, admite que trai o próprio discurso. As metáforas utilizadas aqui são formidáveis, como a do tabuleiro. O refrão é um pop irresistível, que nos faz entrar nesse jogo de sedução e negação do eu lírico.
No pós-refrão, o eu-lírico abandona momentaneamente a lírica entre o humor e a ironia para revelar algo mais sutil, o desejo como afirmação de vitalidade. Isso acaba sustentando positivamente o refrão.
Até aqui, o artista vinha criando um universo simbólico com suas palavras, mas é na segunda estrofe da canção que esse universo se amplia de fato. Todas as metáforas dessa parte da música conduzem rapidamente o ouvinte a uma ambientação teen noventista. HYO, em frases doces, declara em pequenos gestos sua vulnerabilidade diante da pessoa desejada. Até aqui, este é o melhor momento da canção, misturando profundidade, energia e adolescência. Trata-se de uma grande estrofe teen-pop que aceita o ridículo como parte do tesão.
A ponte da canção é totalmente boba, e isso é uma boa escolha do artista. Em seus versos, o eu lírico, ao se colocar como tolo, mostra que o desejo não precisa ser grandioso, mas apenas genuíno. HYO constrói um certo desarme emocional que funciona muito bem neste momento da canção, quando ela caminha para o fim.
Chegando ao último refrão, no qual há adições de versos, o eu-lírico desmonta toda a sua armadura. Agora há uma rendição explícita, em que se mostra totalmente fora de controle, fazendo a canção terminar não com uma vitória, mas com entrega.
O visual da canção conversa diretamente com a narrativa lírica. Assinada por Tammy, toda a arte do single tem um apelo forte, com uma estética que remete imediatamente às capas de revistas teen/fashion dos anos 1990 e 2000. Isso dialoga perfeitamente com a faixa, que tem a intenção de resgatar o pop-chiclete e a estética adolescente. As cores escolhidas são convidativas, assim como a canção, além de bonitas e limpas.
Por fim, “Clueless” cumpre o que prometeu. HYO nos entrega leveza e provocação em um single pop confessional. O artista não busca oferecer uma canção profunda, “Clueless” é superficial de forma inteligente, e esse é seu grande mérito. O single se destaca justamente por não tentar ser mais do que é e, assim, acaba sendo muito.