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Spin publicou uma avaliação em 08/02/2026: 88
Shangri-La é um álbum que entende liberdade como processo interno, ao longo de dez faixas, Rubia constrói um álbum voltado para a experiência interna, onde liberdade, espiritualidade e afeto são tratados como processos contínuos, inspirado no conceito do paraíso oculto descrito por James Hilton. Musicalmente, Shangri-La transita entre bossa nova, dream pop, latin pop, jazz e momentos mais rítmicos, a produção privilegia textura, leveza e espaço, reforçando a sensação de suspensão que o conceito pede. A abertura acontece com 'Amor Fati', um ínicio que parte da dúvida, desalinhamento e da sensação de inadequação. O segundo verso: “Pensé en ser la mejor cantante, / pero no tengo el alcance vocal para eso”, é um dos mais importantes da faixa por sua clareza desconfortável, a simplicidade lírica soa menos poética do que em singles anteriores do projeto, mas a faixa cumpre bem seu papel como abertura do disco. Em 'Si Abro Los Ojos No Es Real', segunda track do disco, a artista aprofunda essa crise ao desmontar uma identidade construída pela idolatração e pela idealização, a perda do “outro divino” provoca não apenas dor, mas também um vazio identitário. A terceira faixa é 'Bohemia', parceria com Alex Fleming e representa a primeira inflexão emocional real do projeto, apresentando uma forma de amar mais leve, baseada na redescoberta, a metáfora do brechó é muito bem sustentada pela artista: “Escolhendo um souvenir em brechós empoeirados / Lá estava o meu bem mais raro”. Em seguida temos 'La Sirena', a canção se constrói como uma fábula, mas aqui a sereia não é a sedutora clássica que leva homens a ruína, ela é alguém que existe e por isso se torna alvo, o "caçador" não age por desejo mas por ressentimento, essa é a melhor faixa até aqui, o uso da ideia da sereia é inteligente assim como a clareza temática. O Side A se encerra com 'Onsra', uma das faixas mais sensíveis do disco, ao revisitar a casa da infância como símbolo de proteção e origem, Rubia encontra no passado não um lugar para retornar mas uma base emocional que sustenta o presente. O Side B inicia com, 'Reflejo En Cielo' sexta faixa do disco, aqui a artista desloca a busca do passado para o futuro, introduzindo um desejo de transcendência espiritual e ruptura com a vida urbana, percebida como superficial e exaustiva: “Todas las leyes modernas de afuera suenan limitantes”. Em seguida, 'Clave De Éter' e 'Gypsy Song' traduzem essa libertação em experiências concretas através de o amor vivido sem dependência e a afirmação do nomadismo emocional como escolha de identidade, as faixas apresentam menos sutileza lírica em comparação com letras do SIDE A, apesar disso as letras são mais claras e afirmativas. 'Flirtation' em parceria com Lashae é a nona track do disco e funciona como um momento de renascimento no qual o flerte é utilizado como metáfora para o primeiro contato com a vida após um período de estagnação, a parceria amplia essa sensação de descoberta, Rubia traduz esse despertar em sensações físicas muito diretas: “Siento el anhelo en la boca de mis pulmones” “Me siento tan bien, estoy viva”. O encerramento do trabalho chega com a aclamada 'Bambi' que sintetiza o projeto ao propor um retorno a essência com leveza e a curiosidade vividas sem culpa e sem promessas absolutas, as linhas: “Cuando vi a Bambi brincando por los bosques / Sentí que algo en mí había regresado”, compacta bem a ideia da faixa. Musicalmente, Shangri-La transita com segurança entre gêneros, privilegiando textura, suavidade e atmosfera, com uma escolha musical elegante e consistente, ainda que em alguns momentos, essas escolha resultem em redução do contraste interno do álbum e tornando sua cadência previsível, o visual e clean e simples mas condizente com o seu conceito, outro limite está no uso recorrente de uma espiritualidade mais estética do que experiencial, além disso, o arco final se estabilize cedo demais, optando pela permanência em vez do risco narrativo. Ainda assim, esses limites não comprometem a força do projeto, Rubia não constrói um paraíso inalcançável, e sim ensina a reconhecê-lo.

The Boston Globe publicou uma avaliação em 01/02/2026: 96
Rubia deixa as cores intensas e um pouco do seu ego de lado e se entrega a outro sentido no seu novo álbum, “Shangri La”. Composto por 10 faixas e dividido entre os lados A e B, o disco se inicia em “Amor Fati” — uma canção de partir o coração, onde a artista se vê perdida diante como seguir e de seu valor. É uma música linda, bem escrita e que não precisa de grandes artefatos líricos para ser bela. “Si Abro Los Ojos No Es Real” passeia sobre e diante o passado de Rubia, por trás de sua carcaça e diante as suas decisões mais adversas. É uma canção carregada e guiada pela angústia e pelo medo de deixar o passado definir ou até mesmo afetar as decisões de seu presente e futuro. “Bohemia”, parceria com Alex Fleming, serve para dar um sentimento de calmaria ao projeto, sendo uma composição sobre uma amizade que se torna ou parece se tornar um pouco mais do que é nas visões de Rubia. Essa quebra de expectativa é interessante para dar um certo fôlego ao projeto. “La Sirena” volta um pouco ao sentido mais angustiante do projeto, aqui usando da figura de uma sereia para narrar um conto de obsessão e de pensamentos mais dolorosos, mas, no final, o eu-lírico consegue passar por cima disso. Finalizando o primeiro lado do projeto, temos “Onsra” — canção mais resumitiva e mais sintetizada, que fala sobre um lugar o qual Rubia sempre volta mentalmente falando como forma de refúgio, de escapismo. É uma canção bonita e simples com uma atmosfera interessante a qual está inserida. Iniciando o lado B, temos “Reflejo En Cielo” — a qual aborda o escapismo da música anterior de certo modo, mas aqui dando um sentido de ser maior do que o lugar a qual ela está inserida. É um grande destaque nesse projeto. “Clave De Éter” traz o sentimento puro do amor como algo que acrescenta, e não como dependência ou algo do tipo. É uma canção que soa interessante aqui por abordar, além do amor por outra pessoa, o amor a si próprio — num sentido de se colocar em primeiro lugar, sem anular querer estar com outro alguém. “Gypsy Song” mistura o cunho mais alternativo das faixas anteriores numa roupagem Pop junto ao Reggaeton. É uma boa jogada na tracklist, como foi na quebra de expectativa anteriormente, e traz um pouco da antiga Rubia para jogo. “Flirtation”, com a cantora LASHAE, traz uma atmosfera inteligente e palpável junto a artefatos lírico bem concisos. É um destaque por soar bem diferente e ao mesmo tempo se assimilar com a energia das duas artistas. O disco se encerra no carro-chefe, “Bambi”. É a canção perfeita para encerrar toda essa narrativa: Rubia está e é livre, sem mais, nem menos. O visual, produzido por MOE e Rubia, surpreende. Particularmente porque, lendo o projeto, você vai imaginando justamente algo esotérico, místico, natural… e quando você enxerga o encarte, você vê tudo que imaginava de uma forma ainda mais interessante. MOE e Rubia souberam dosar as fotos usadas junto a dons gráficos muito interessantes. Em síntese, “Shangri La” se destaca na discografia de Rubia por soar 100% seu; seja pelas suas letras que sempre soam próprias de si, seja por expressões que flertam justamente com tudo que ela promete, seja por mostrar ao ouvinte alguém que conquistou de vez o poder da sua narrativa.
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