No seu mais recente single 'CATARSIS', Sierra Albani entrega uma faixa ambiciosa, visceral e completamente comprometida com a própria metáfora. Desenvolvida a partir do retrato da cobra devorando a tarântula (em referência ao seu single anterior de mesmo nome), a imagem é forte o suficiente para sustentar toda a música, transformando a faixa em um retrato de autodestruição e renascimento sem recorrer a uma narrativa de superação convencional. O grande mérito da música está em sua atmosfera: há algo quase repulsivo e fascinante na ideia de Sierra consumir a própria versão anterior para se tornar alguém diferente. A letra abraça o grotesco, a dor e a transformação física de maneira bastante teatral, embora em alguns momentos a composição se aproxime demais da repetição de suas próprias imagens (teias, veneno, pele e digestão aparecem com bastante frequência), em hipótese essa insistência pode servir para reforçar a sensação de obsessão e processo, mas não deixa de tornar um pouco falha a progressão da obra. Os visuais da faixa traduzem muito bem a lógica da música porque não apresentam a transformação de Sierra como algo elegante ou espiritual, mas como algo sensual, agressivo, caótico e quase que predatório, com destaque para a capa que, através da sua riqueza de detalhes, camadas e artifícios gráficos, funciona como o ponto final da narrativa lírica apresentando Sierra envolta pelo animal peçonhento que marca toda a narrativa de 'CATARSIS' e faz um link direto com os versos finais da faixa "Livre da culpa / Apenas a serpente / Apenas Sierra". No fim, 'CATARSIS' é uma obra sobre transformação através da própria destruição. Sierra não escapa da aranha, ela a consome, digere e transforma seu veneno em força. Entre uma faixa visceral e visuais marcantes, a artista apresenta uma nova versão de si mesma: mais livre, mais cheia de si e muito mais aperfeiçoada.
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