
VOGUE publicou uma avaliação em 04/01/2026: 91
The Finite State Machine é um álbum ambicioso e, em muitos momentos, visceralmente eficaz. Ele traduz claustrofobia, impulso e paranoia em um corpo sonoro coeso e conceitualmente alinhado. Ainda assim, a própria ambição do projeto acaba revelando seu maior problema: a falta de um controle editorial mais rigoroso. Há ideias excelentes como aprodução textural densa, imagens líricas fortes e momentos de catarse, mas elas convivem com repetições e escolhas de arranjo que diluem o impacto emocional. O conceito da “máquina de estados finitos” não é apenas estético; ele estrutura a narrativa do disco. A progressão entre colapso, devoração, paranoia e dissociação cria um arco psicológico claro, especialmente em faixas como Spiraling e Sinking Into Another Night, que funcionam como portais de imersão no estado mental proposto pelo álbum. A produção assinada por Reznor, Ross e Gesaffelstein é um dos grandes acertos. Camadas metálicas, ruídos e silêncios operam como abrasivos emocionais, reforçando a brutalidade sem cair no exagero gratuito. O design sonoro se impõe como identidade e sustenta a proposta conceitual com consistência. O disco também acerta quando permite momentos de contenção. The Last State: Echos e trechos de Metallic Taste funcionam como pontos de ancoragem emocional, provando que o álbum é mais forte quando reduz excessos e deixa a tensão falar por si. Entretanto, a repetição temática acaba se tornando um peso. Certos motivos e sensações são retomados em Raw, Spit In My Mouth e Sweet Creature sem ganho real de profundidade ou mudança de perspectiva, o que gera saturação narrativa. A gestão de dinâmica também apresenta falhas: algumas faixas se estendem além do necessário e a densidade sonora raramente abre espaço para contraste, resultando em um acúmulo que dilui o impacto e torna a escuta progressivamente desgastante. Liricamente, o álbum oscila entre versos contundentes e outros que soam pouco trabalhados ou óbvios demais. Falta, em certos trechos, um refinamento que transforme choque em construção psicológica mais duradoura. O que foi bem executado e merece ser mantido Consistência estética visual: a paleta laranja funciona e deve continuar; é um ativo conceitual raro. Ambientes sonoros texturizados: o design sonoro é uma assinatura e é aqui que o álbum mais brilha. Momentos de verdadeira emoção crua: preservar as versões mais nuas de Metallic Taste e The Last State como pontos de ancoragem. O que poderia ser aprimorado Trabalhar um par de versos em Sweet Creature e Valis para transformar metáforas chocantes em imagens psicológicas específicas (menos slogan, mais cena). Por exemplo, em vez de "pronto para devorar sua carne" sem contexto, sugerir detalhe: onde, quando, por quê; qual memória torna esse ato simbólico. Cortar: uma entre Metallic Taste, Valis, Sweet Creature. A minha escolha técnica seria Valis como corte se for necessário, mas com (algumas) ressalvas (pois ela funciona conceitualmente). The Finite State Machine é um álbum que merece ser ouvido com atenção e celebrado por sua ambição e força atmosférica. Ao mesmo tempo, peca por excesso de autoproteção conceitual: o projeto precisa de cortes cirúrgicos e variedade dinâmica para transformar grandeza em legado. Esse disco tem tudo para ser um clássico contemporâneo do industrial-pop. Agora é hora de escolher o que manter queimando e o que apagar para queimar melhor.