Após resistir a toda pressão para se conformar com as expectativas sociais criadas por outros em “Servant”, DAHLIA confronta o patriarcado em “GENESIS”. Utilizando a história do Éden ao som de uma melodia que une o HIP-HOP e o R&B, a britânica traz mais uma crítica ao poder, desta vez se aprofundando em como, desde os primórdios, as mulheres são manipuladas e impedidas de deter poder.
O single se inicia com uma introdução densa. Dahlia utiliza a metáfora do Éden para estabelecer o conceito de sua narrativa. A ideia de “abrir os portões” funciona muito bem, o eu lírico refere-se à atitude de revelar o que foi apagado. A britânica aqui estabelece a ambientação do seu single, com metáforas que cumprem o papel de demonstrar ao ouvinte toda a simbologia que estará por vir.
Logo após, temos a primeira estrofe. O eu-lírico aqui utiliza uma lírica mais direta, mas ainda bem escrita. Dahlia assume um tom narrativo que beira uma fábula, o que não soa ingênuo, a artista ironiza a infantilização feminina e expõe como a opressão não começa pela violência direta, mas sim pela manipulação.
O primeiro pré-refrão da canção traz metáforas eficientes, como a do “martelo foi batido”. O eu-lírico narra como a mulher é transformada em algo monstruoso, sem chances de defesa. A artista consegue construir uma ótima preparação para o refrão.
O refrão é uma aposta ousada. O eu-lírico se torna um grande questionador. Ao afirmar que a história de Gênesis é conhecida “em hipótese”, a artista desfaz a ideia de verdade absoluta. A artista arrisca em metáforas inteligentes que convidam o ouvinte a refletir, utilizando nessa parte uma lírica mais racional, afastando a canção do campo emocional. Para alguns, isso pode não funcionar, mas combina totalmente com a proposta do single.
Na segunda estrofe, o eu-lírico traz um dos versos mais consistentes da canção, alternando entre a narrativa bíblica e a crítica social com maestria. Dahlia expõe como a figura feminina se torna automaticamente uma vilã na história, sendo colocada nessa posição mesmo com todos sabendo quem realmente induziu ao erro.
A canção conecta toda essa narrativa com a exposição pública em seu segundo pré-refrão. O eu-lírico aproxima a narrativa antiga da realidade da indústria musical, trazendo a ideia da maçã como as promessas de reconhecimento que terminam em vergonha, levando o artista à queda. Dahlia nos entrega um pré-refrão com uma lírica simples, mas bem aplicada.
Criticando a hipocrisia, Dahlia ironiza como as pessoas performam moralidade na ponte de “GENESIS”. Distanciando-se das metáforas bíblicas e cantando sem rodeios, a britânica confronta e se impõe, mostrando que já não aceita mais a narrativa imposta. A ponte cumpre bem seu papel no meio desse grande manifesto, mesmo que, em algumas frases, a lírica diminua sua qualidade em comparação a outros momentos do single.
Em seu terceiro pré-refrão, o eu-lírico assume um tom mais agressivo, reforçando sua revolta e fazendo uma escolha ousada ao afirmar que está “alfinetando” a indústria. Essa abordagem final é ousada, e mesmo correndo o risco de soar soberba e não poética, Dahlia escolhe o que é mais coerente em relação à denúncia que faz em seu mais novo single.
A produção gráfica do single é assinada por LEXIE. Visualmente, o single se conecta de forma fiel à narrativa lírica. As tonalidades escolhidas e as fotografias enriquecem a experiência da escuta do single, sendo um grande acerto.
Por fim, “GENESIS”, acima de tudo, é uma canção corajosa. Dahlia reinterpreta a história do Éden para discutir o machismo não só na indústria musical, mas em todo aspecto social. Claro que, em alguns pontos, a canção poderia ser refinada, mas talvez, sendo feito isso, perderia toda sua honestidade e forma crua de expressar tamanha indignação. “GENESIS” passa de forma clara sua mensagem, enquanto Dahlia se mostra mais consciente e ativa do que nunca.