GENESIS DAHLIA Hip-Hop, RandB2025

DIY publicou uma avaliação em 17/01/2026: 90

DAHLIA inicia uma nova fase com “GENESIS”, um lançamento que soa como declaração de princípios e reafirmação de voz. A faixa chega envolta em confiança e ambição, deixando claro que a artista enxerga a música como espaço de construção simbólica e não apenas como vitrine. Há uma intenção nítida de ir além do imediato, de transformar referências conhecidas em matéria-prima para um discurso autoral e potente. A canção se apoia em imagens fundadoras da cultura ocidental para desmontá-las por dentro e, ao reposicionar a figura feminina no centro da criação, ressignifica a ideia de origem, deslocando a culpa e transformando-a em consciência e força, em diálogo com dinâmicas sociais que seguem se repetindo no presente. A escrita avança com fluidez e firmeza, conectando passado e agora sem didatismo, enquanto cada verso reforça a sensação de controle artístico, como se a rapper estivesse desenhando seu próprio território dentro da indústria. Não há excessos nem desvios. O discurso se sustenta pela clareza, pela escolha precisa das imagens e pela maneira direta com que a mensagem se estabelece. Mesmo em um catálogo ainda em formação, “GENESIS” se impõe como um marco e revela maturidade criativa, visão de longo prazo e uma artista consciente do impacto que deseja provocar. DAHLIA não soa como alguém em busca de validação, mas como uma voz que entende seu lugar e decide ocupá-lo com personalidade. Assim, “GENESIS” funciona como um ponto de virada simbólico. Mais do que um novo single, é um gesto artístico que amplia o horizonte da rapper e fortalece a expectativa em torno de seus próximos passos, consolidando sua presença como uma força criativa atenta, segura e em constante expansão.



i-D publicou uma avaliação em 04/01/2026: 70

Após quase um ano sem o lançamento de um single oficial, DAHLIA retorna com "GENESIS". Após o grande sucesso comercial e crítico de "Unbreakable Ego", parceria com Remy C, a rapper entrega sua nova aposta para a indústria fonográfica. "GENESIS" é definida pela cantora como uma reinterpretação da narrativa do conto bíblico da criação e do papel que o sexo feminino tem nele. A culpa e a responsabilidade que foram impostas à primeira mulher. Contextualizando tal cenário com os tempos atuais, DAHLIA consegue fazer boas metáforas e conexões entre o sistema patriarcal que envolve a sociedade até os dias de hoje. Ainda que exista uma satisfação na letra, ela não se dá por completo. Aqui pisamos em um território que já foi explorado por grande parte da indústria e que já nos rendeu trabalhos marcantes, que geraram impactos culturais e comerciais gigantescos. Ainda que exista um bom fundamento temático, DAHLIA não parece conseguir explorar o potencial que tinha em mãos para este trabalho. Existem, sim, boas metáforas e conexões entre a história de Gênesis e toda a contextualização moderna que a artista traz, mas grande parte disso tudo soa clichê e perde boa parte de sua força por conta disso. Falta um amadurecimento lírico, para que a rapper conseguisse trabalhar um tema tão corriqueiro com um diferencial que a destacasse entre tantos outros trabalhos que bebem da mesma fonte que este. DAHLIA é relativamente nova na indústria e, tendo ainda apenas singles em sua discografia, é notável que a artista pode usar a liberdade e o espaço que tem para evoluir mais a cada lançamento. "GENESIS" não é uma canção descartável, mas, ao mesmo tempo, ainda soa como algo que já foi feito antes, e isso é algo com que qualquer artista tem que saber lidar em qualquer momento de sua carreira. A rapper tem um potencial notável, mesmo nessa canção, e quanto a isso só podemos desejar que ela consiga desenvolver cada vez mais suas habilidades para que, no futuro, consiga nos entregar um álbum de estreia digno de seu tempo de espera.



slant publicou uma avaliação em 28/12/2025: 90

Após resistir a toda pressão para se conformar com as expectativas sociais criadas por outros em “Servant”, DAHLIA confronta o patriarcado em “GENESIS”. Utilizando a história do Éden ao som de uma melodia que une o HIP-HOP e o R&B, a britânica traz mais uma crítica ao poder, desta vez se aprofundando em como, desde os primórdios, as mulheres são manipuladas e impedidas de deter poder. O single se inicia com uma introdução densa. Dahlia utiliza a metáfora do Éden para estabelecer o conceito de sua narrativa. A ideia de “abrir os portões” funciona muito bem, o eu lírico refere-se à atitude de revelar o que foi apagado. A britânica aqui estabelece a ambientação do seu single, com metáforas que cumprem o papel de demonstrar ao ouvinte toda a simbologia que estará por vir. Logo após, temos a primeira estrofe. O eu-lírico aqui utiliza uma lírica mais direta, mas ainda bem escrita. Dahlia assume um tom narrativo que beira uma fábula, o que não soa ingênuo, a artista ironiza a infantilização feminina e expõe como a opressão não começa pela violência direta, mas sim pela manipulação. O primeiro pré-refrão da canção traz metáforas eficientes, como a do “martelo foi batido”. O eu-lírico narra como a mulher é transformada em algo monstruoso, sem chances de defesa. A artista consegue construir uma ótima preparação para o refrão. O refrão é uma aposta ousada. O eu-lírico se torna um grande questionador. Ao afirmar que a história de Gênesis é conhecida “em hipótese”, a artista desfaz a ideia de verdade absoluta. A artista arrisca em metáforas inteligentes que convidam o ouvinte a refletir, utilizando nessa parte uma lírica mais racional, afastando a canção do campo emocional. Para alguns, isso pode não funcionar, mas combina totalmente com a proposta do single. Na segunda estrofe, o eu-lírico traz um dos versos mais consistentes da canção, alternando entre a narrativa bíblica e a crítica social com maestria. Dahlia expõe como a figura feminina se torna automaticamente uma vilã na história, sendo colocada nessa posição mesmo com todos sabendo quem realmente induziu ao erro. A canção conecta toda essa narrativa com a exposição pública em seu segundo pré-refrão. O eu-lírico aproxima a narrativa antiga da realidade da indústria musical, trazendo a ideia da maçã como as promessas de reconhecimento que terminam em vergonha, levando o artista à queda. Dahlia nos entrega um pré-refrão com uma lírica simples, mas bem aplicada. Criticando a hipocrisia, Dahlia ironiza como as pessoas performam moralidade na ponte de “GENESIS”. Distanciando-se das metáforas bíblicas e cantando sem rodeios, a britânica confronta e se impõe, mostrando que já não aceita mais a narrativa imposta. A ponte cumpre bem seu papel no meio desse grande manifesto, mesmo que, em algumas frases, a lírica diminua sua qualidade em comparação a outros momentos do single. Em seu terceiro pré-refrão, o eu-lírico assume um tom mais agressivo, reforçando sua revolta e fazendo uma escolha ousada ao afirmar que está “alfinetando” a indústria. Essa abordagem final é ousada, e mesmo correndo o risco de soar soberba e não poética, Dahlia escolhe o que é mais coerente em relação à denúncia que faz em seu mais novo single. A produção gráfica do single é assinada por LEXIE. Visualmente, o single se conecta de forma fiel à narrativa lírica. As tonalidades escolhidas e as fotografias enriquecem a experiência da escuta do single, sendo um grande acerto. Por fim, “GENESIS”, acima de tudo, é uma canção corajosa. Dahlia reinterpreta a história do Éden para discutir o machismo não só na indústria musical, mas em todo aspecto social. Claro que, em alguns pontos, a canção poderia ser refinada, mas talvez, sendo feito isso, perderia toda sua honestidade e forma crua de expressar tamanha indignação. “GENESIS” passa de forma clara sua mensagem, enquanto Dahlia se mostra mais consciente e ativa do que nunca.