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The Boston Globe publicou uma avaliação em 04/10/2026: 89
O finalmente entregue album de estreia de Manila, é um disco sobre identidade, mas principalmente sobre o que acontece quando a adaptação deixa de ser uma escolha e se torna parte de você. Ao longo das faixas, Manila revisita relações, expectativas e situações que ajudaram a formar a pessoa que ela se tornou, sem transformar tudo em uma história simples de vítima e superação. A faixa-título resume bem essa ideia ao apresentar alguém que aprendeu a controlar expressões, gestos e até sentimentos para nunca ser completamente descoberta. “I made a home inside disguise”, o centro do conceito quando o disfarce deixa de ser algo usado para esconder quem ela é e passou a ser o lugar onde ela consegue existir. Quando a “costura” da máscara se desfaz nos momentos de conforto, pequenas lembranças e medos escapam, mas o álbum não trata essas partes como uma verdade pura escondida por baixo de todas as mentiras. Essa falta de uma resposta simples também aparece na maneira como Manila entende as outras pessoas. Ela sabe que todo mundo escolhe o que mostrar, interpreta situações e cria versões de si, então sua própria manipulação não é apresentada apenas como algo negativo. “I Heard It Through The Grapevine” leva essa ideia para outro lado ao mostrar Manila perdendo o controle sobre a própria história: enquanto as pessoas ao redor parecem conhecer o fim de uma relação, ela descobre tudo através de rumores e percebe que seu nome já foi transformado conforme passou de boca em boca. Em “So, I Watch It Burn”, a perspectiva muda novamente e ela assume responsabilidade pelo que também destruiu. “I lit the match, I closed the door” deixa claro que o álbum não tenta absolvê-la de tudo. Existe culpa, certo desgaste e uma aceitação de que algumas coisas simplesmente não podem mais ser recuperadas. Apesar de brilhar quando abraça o pop, o lado alternativo acaba entrando em desfalque, o que enfraquece parte da proposta sem arruinar a experiência. Woman In Disguise parece querer ser mais conceitual do que algumas de suas próprias músicas precisam ser, e talvez funcionasse melhor se não carregasse tanta seriedade sobre os próprios ombros. Ainda assim, existe uma boa unidade entre as faixas. “I Heard It Through The Grapevine” trabalha a perda de controle sobre a própria história, “So, I Watch It Burn” assume responsabilidade pelo que foi destruído e “Die by Your Hands”, encerrando o álbum, finalmente abandona a necessidade de aprovação. Manila não termina o disco revelando uma versão definitiva de si mesma, mas entendendo que não precisa continuar tentando ser aquilo que os outros esperam. É uma conclusão coerente para um álbum que nunca esteve realmente interessado em descobrir o que existe por trás da máscara, mas em mostrar o quanto é difícil distinguir a mulher do disfarce depois de tanto tempo existindo como um só.

slant publicou uma avaliação em 04/10/2026: 81
Existe uma contradição no centro de Woman In Disguise, álbum de estreia de Manila, e ela é mais interessante do que qualquer narrativa de superação que o disco poderia oferecer: quanto mais a cantora tenta descobrir quem é, mais percebe que sua identidade foi construída pelas pessoas que a observam. O “disfarce” do título não é simplesmente uma mentira. É uma coleção de adaptações (algumas conscientes, outras não) que, depois de tempo suficiente, deixam de parecer uma fantasia e passam a funcionar como personalidade. É uma premissa ambiciosa para um primeiro álbum. Mais importante, Manila entende que ambição não precisa necessariamente significar grandiosidade emocional. Woman In Disguise não quer transformar seus traumas em prova de caráter, nem suas contradições em etapas de uma eventual redenção. Seu narrador é, em diferentes momentos, vítima, manipuladora, espectadora, participante, ressentida e autora da própria destruição. O disco é melhor justamente quando se recusa a decidir qual dessas versões é a “verdadeira”. Há algo quase teatral na maneira como Manila escreve sobre si mesma. Pessoas viram deuses, relacionamentos viram altares, casas viram hospícios, desertos viram cenários para ressurreições impossíveis, reputações são transmitidas como rumores e artistas são aconselhadas a sobreviver como estrangeiras em Roma. Tudo parece acontecer dentro de uma grande encenação. Mas, ao contrário de muitos álbuns conceituais que usam metáforas para transformar experiências pessoais em mitologia, o debut da novata está interessado em uma questão mais desconfortável: e se a própria pessoa tiver começado a acreditar no cenário que construiu? É aí que o álbum encontra sua melhor ideia. Manila escreve sobre performance não apenas como algo que fazemos para os outros, mas como algo que eventualmente fazemos para nós mesmos. Em “Woman In Disguise”, esconder-se é proteção. Em “Built God”, idealizar outra pessoa é uma maneira de preencher um vazio. Em “The Phoenician Scheme”, a fantasia se torna tão detalhada que quase consegue substituir a realidade. O mérito está em não transformar essa sequência em uma lição moral. Woman In Disguise não termina dizendo que Manila aprendeu a ser uma pessoa melhor. Termina dizendo que ela aprendeu a não precisar mais da aprovação daqueles que ajudaram a construir sua imagem. “Die By Your Hands” poderia facilmente ser uma catarse vingativa, mas em vez disso, é uma recusa. Ela não precisa que aqueles que a feriram se arrependam, sintam orgulho ou reconheçam sua transformação. Depois de um disco inteiro preocupado com ser vista, finalmente surge a possibilidade de não precisar ser vista por determinadas pessoas. É um encerramento consideravelmente mais sofisticado do que uma vitória. A escrita, entretanto, é também onde o disco encontra seus limites. Manila tem uma imaginação visual evidente, mas às vezes parece incapaz de abandonar uma metáfora depois que ela já cumpriu sua função. Fogo, cinzas, espelhos, sombras, estrelas, ruínas, portas, navios, máscaras e fantasmas aparecem repetidamente. Separadamente, são imagens eficazes mas juntas, começam a formar um vocabulário tão reconhecível que certas músicas parecem competir para produzir a frase mais cinematográfica possível. Essa tendência também afeta alguns dos momentos mais conceituais do álbum. “Joan”, por exemplo, articula perfeitamente a obsessão de Manila por legado, julgamento e transformação de uma pessoa em símbolo, mas sua vontade de se tornar inesquecível é explicitada tantas vezes que sobra pouco espaço para ambiguidade. “When In Rome” tem uma crítica interessante à indústria e às formas de autocensura necessárias para sobreviver nela, mas seu antagonista é muito mais fácil de identificar do que aqueles que aparecem no restante do disco. Quando Manila abandona a necessidade de parecer monumental, porém, Woman In Disguise se torna muito mais poderoso. “Gone” é exemplar nesse sentido. Sua ideia de recuperação através da criação é quase banal (artistas transformam sofrimento em arte o tempo inteiro), mas a maneira como Manila reduz a cura a uma sexta-feira compondo músicas é justamente o que torna a ideia convincente. Da mesma forma, o detalhe de “Madhouse” de uma criança tentando desaparecer dentro de uma casa cheia de adultos é mais perturbador do que qualquer uma de suas imagens grandiosas. E “The Phoenician Scheme” encontra sua força não no deserto, no hotel ou no vestido vermelho, mas na percepção simples de que uma fantasia pode ser perfeitamente construída e ainda assim não produzir reciprocidade. Esses momentos sugerem que Manila talvez seja uma compositora mais interessante quando não está tentando provar que é uma. A produção assinada por Penelope, mesmo considerada a partir da arquitetura descrita para o projeto, parece obedecer à mesma lógica visual das letras: Woman In Disguise quer soar como um objeto encontrado entre o pop, o drama cinematográfico e uma espécie de gótico contemporâneo. O material visual acompanha isso com uma segurança incomum para um primeiro trabalho. A capa em preto e branco, a figura alada parcialmente exposta, as penas dispersas e a tipografia quase medieval transformam a imagem de Manila em algo simultaneamente angelical, vulnerável e artificial. O corpo está à mostra, mas sua identidade continua escondida. O encarte aprofunda essa ideia. A tipografia fragmentada, as palavras separadas por linhas e a estética quase de manuscrito religioso fazem o álbum parecer menos um produto pop e mais um arquivo de versões de uma mesma pessoa. É uma escolha estética particularmente adequada porque não tenta “embelezar” o conceito: a própria identidade visual parece estar em processo de montagem. No fim, Woman In Disguise é menos um disco sobre tirar uma máscara do que sobre perceber que nunca houve apenas uma. Sua melhor provocação é sugerir que autenticidade talvez não seja o oposto da performance. Talvez sejamos parcialmente constituídos pelas versões que inventamos, pelas expectativas que absorvemos e pelas histórias que outras pessoas contam sobre nós. Como estreia, Woman In Disguise é excessivo, às vezes pretensioso e ocasionalmente apaixonado demais pelas próprias metáforas. Mas também é conceitualmente consistente, visualmente distinto e, sobretudo, consciente das zonas moralmente desconfortáveis de sua protagonista. Manila não pede que o ouvinte goste dela. Tampouco pede que a perdoe. Ela pede algo mais difícil: "que o ouvinte aceite que a pessoa por trás da máscara talvez também tenha sido construída pela máscara".
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