
Rolling Stone publicou uma avaliação em 11/11/2025: 100
Cinco anos após seu último álbum de estúdio, Jackie retorna não apenas com um novo trabalho, mas com um manifesto. Rebel Rocker Evening é o disco mais ambicioso, conceitualmente maduro e liricamente devastador de sua carreira — uma jornada em três movimentos, inspirada livremente na Divina Comédia de Dante, mas que, ao contrário da epopeia medieval, se passa nos escombros da fama, nas ruínas da identidade e nos labirintos internos da própria Jackie. O álbum abre com a explosiva “Hell for Vultures”, uma crítica mordaz à indústria da música e à cultura da performance, onde o eu lírico se vê enclausurado em um molde que nunca escolheu vestir. “Engula os sentimentos e sorria”, ela canta, com sarcasmo afiado. É um prenúncio de que estamos prestes a entrar em um inferno construído de palcos, espelhos e câmeras de vigilância. O primeiro ato, Inferno, segue em linha crescente. “Sacrifice in Plain Sight” brinca com o imaginário do rock satânico para falar de pactos — não com o diabo, mas com a própria integridade artística. Já “Fatal Feast”, sua visceral parceria com Alec Weaver, é um espetáculo grotesco de autofagia emocional. “Você nasceu para liderar esta mesa”, diz Jackie, “não para fugir dela” — e é exatamente isso que ela faz. “In Your Bones” vem como uma reviravolta. Jackie já não quer fugir, nem se vingar — ela quer sepultar. É a catarse de quem cansou de carregar fantasmas alheios. “Black Sheep” e a faixa-título “Rebel Rocker Evening” encerram o primeiro arco com brutalidade e elegância. PRAYØR traz ainda mais densidade à atmosfera com sua presença taciturna, e Jackie, agora em pleno domínio de sua narrativa, assume o trono que antes evitava. “Rebelar-se antes que te queimem” parece ser o novo evangelho. O segundo ato, Purgatório, é menos sobre redenção e mais sobre estagnação. “Purgatory for Rebellious Childrens” (com Kaleb Woodbane) é quase bíblica em sua ironia. “Old Habits (Die Hard)” e “Love Can’t Save Me Now” são hinos melancólicos sobre o retorno cíclico aos mesmos erros, enquanto “Mother’s Mercy” e “Haunting Me” são conversas com os mortos — ou com a memória que permanece deles. Aqui, Jackie baixa a guarda. É frágil, confessa, mas jamais se entrega ao sentimentalismo fácil. O terceiro e último ato, Paraíso, não é celestial: é reflexivo. “Heaven for Tortured Minds” toca em feridas de infância e adoção com uma honestidade rara na música pop. “Antidote” (com Zane) é um contraponto necessário, onde Jackie descobre que há salvação — mas não vem de fora. É autoconstruída. O final chega com “Divine Comedy”, contada em terceira pessoa, como quem observa sua própria jornada de longe. Ela se encerra como se dissesse: “Não sobrevivi ao inferno. Eu o escrevi.” No entanto, apesar da riqueza sonora e conceitual, o visual do disco deixa a desejar. O encarte carece da mesma profundidade e ousadia presentes nas composições. A estética visual, que poderia complementar e expandir a narrativa do álbum, acaba por parecer genérica e pouco inspirada, não fazendo jus à complexidade e à sofisticação do conteúdo musical. No geral, “Rebel Rocker Evening” é um disco desafiador e distante de fórmulas fáceis. Em vez de segui-las, Jackie propõe uma escuta que vai além do casual. Seu novo trabalho carrega intenção em cada detalhe — dos primeiros versos ao encerramento — e transforma o álbum em experiência. E mesmo que o visual não acompanhe a grandiosidade lírica, a obra se destaca como um marco na trajetória da artista, consolidando sua versatilidade e profundidade artística.

Pitchfork 90
Após um longínquo período desde seu último disco, Jackie retorna com Rebel Rocker Evening, seu mais novo álbum musical, uma viagem de renovação. Desta vez, a artista adentra no universo do rock em uma verdadeira odisseia inspirada na obra Divina Comédia, de Dante Alighieri. O disco se divide em uma espécie de três atos: Inferno, Purgatório e Paraíso. Ele se inicia com a faixa Hell For Vultures, onde Jackie relata sua prisão a uma condição imposta da qual não lhe cabia mais. A faixa carrega o início de uma história que conduzirá o disco pelas demais canções de forma majestosa. Na sequência, surgem Sacrifice In Plain Sight e Fatal Feast, faixas excepcionais e que dispensam apresentações. Com Your Bones, Jackie traz firmeza ao disco em uma faixa libertadora. Aqui ela narra um jogo de enganação por parte de uma pessoa negativa, mas sua ira é muito maior do que qualquer sentimento de tristeza, e ela sepulta de vez essa pessoa em sua vida. Prosseguindo, Black Sheep é outra canção que vai além do convencional, marcando o penúltimo capítulo do Inferno antes da faixa que dá nome ao disco. Aqui, Jackie eleva seu lirismo ao máximo. O segundo ato é o Purgatório. Jackie é excepcional e entrega a melhor sequência de faixas de todo o disco. Em Purgatory for Rebelious Children, sua colaboração com Kaleb, os dois artistas constroem um ato engenhoso, onde os recursos da letra transmitem exatamente o que é necessário. Mother's Mercy, assim como todos os singles, é uma faixa inteligente e impactante. O ato final é o Paraíso. O sentimento de reflexão que permeia as canções é definitivo. Quando Divine Comedy começa a ser contada a partir da terceira pessoa, fica claro o que Jackie construiu neste álbum. Não é apenas uma alegoria musical, mas sim todo um novo universo. A estética de Rebel Rocker Evening é rica e sofisticada. Jackie ousa e apresenta um visual que mergulha na atmosfera das canções. Com pequenas sutilezas, o estilo visual conversa diretamente com o conceito do álbum, tornando a experiência tão interessante quanto a leitura de um livro repleto de detalhes que expandem as palavras. Em resumo, Rebel Rocker Evening é um disco desafiador e distante de fórmulas fáceis. Nesta nova fase de sua carreira, Jackie não entrega apenas um álbum para ouvir no dia a dia, mas sim um verdadeiro universo musical. O disco é como a ópera da Divina Comédia.

The Line Of Best Fit 90
Foi no começo do ano 14 que Jaqueline Foster Maldova, lançou oficialmente seu quinto álbum de estúdio, um projeto ambicioso que já contava com os singles previamente lançados, “Black Sheep” e “Fatal Feast”, frutos colaborativos com Prayør e Alec Weaver respectivamente. A premissa do álbum é criar uma perspectiva sobre a mudança de vida da artista, tendo como inspiração a Divina Comédia de Dante Alighieri. Resultando em um álbum dividido em três estados mentais da artista, sendo eles: Inferno, Purgatório e Paraíso. O album inicia com "Hell for Vultures", o que Jackie descreve como uma faixa sobre viver uma vida tentando caber em moldes que você nunca quis estar. E ao decorrer da faixa é possível sentir o clima que a artista está criando. A critica aqui é sobre como as engrenagens da indústria parecem formatar todos para pensarem e agirem de uma mesma forma, tornando-os verdadeiros abutres em cima daqueles que se destacam por irem contra a correnteza. "Não seja verdadeiro, engula os sentimentos e sorria" reafirma a banalidade encontrada nas pessoas que residem a "cidade dos sonhos", que acaba por se revelar o oposto de como é vendida. "Sacrifice in Plain Sight" single promocional e segunda faixa do projeto, é uma faixa que parece brincar, no bom sentido, com a ideia de que grandes sucessos do rock aconteceram por meio de rituais de sacrifícios e pactos satânicos. O uso de metáforas para ilustrar a transição que Jackie fez em sua carreira, ao mudar do Dance para o Rock, revela-se de uma forma inteligente ao trazer um significado a mais tanto para a canção quanto para a narrativa que está se desenvolvendo no album. "Fatal Feast" com participação de Alec Weaver, e um dos maiores sucessos do disco, nesse momento é também a terceira faixa do projeto, e da sequência no que já vimos nas faixas anteriores, principalmente ao que se desenrolou ao longo da segunda faixa. A ideia de colocar a artista em um banquete é uma metáfora que enriquece a narrativa que está sendo proposta, e quando pensamos na dualidade que Weaver traz para a canção torna tudo ainda mais interessante. No fim, o eu lírico percebe que continuar fugindo não é a resposta, e é nesse momento que ele comece a jogar pelas regras do jogo e começa a se comportar como o seu torturador. "Nasceu para liderar esta mesa, não para fugir dela / Então sente-se à mesa e escolha o início da degustação" demonstra o exato momento em que ele percebe que só conseguirá deixar de ser a presa quando passar a se comportar como os caçadores, ou como descritos, abutres. "In Your Bones" é a faixa que carrega a maior carga de raiva do projeto até então, assim como é apresentada, a canção serve como uma forma que a artista encontrou de tirar de si o fardo que não lhe pertencia. Após assumir o papel de caçador, não é mais conveniente continuar levando consigo as marcas da toxidade de outra pessoa. A forma como a faixa foi encaixada nesse momento da narrativa deu um significado a mais, mesmo sendo tão direta. "Black Sheep" logo em sequência é bastante interessante, quando pensamos que no início Jackie falava sobre os moldes da indústria, aqui ela parece estar mais confiante de que ela está fazendo apenas o que ela quer e como deseja. Criar um rock que traz elementos do Dance, traz a sensação de que aqui ela já assumiu controle dos moldes que antes eram vistos como pressão. PRAYØR, participação da canção, compartilha do mesmo ponto de vista alcançado pelo eu lírico de Jackie ao longo do disco. Chegamos então na faixa título, "Rebel Rocker Evening", e de forma bastante sugestiva, vemos o eu lírico se rebelar de tal modo que até o diabo o temeria. A canção descrita por sua autora como a mais complexa, desbrava sobre a sensação de que você precisa fazer primeiro para que não façam com você. Em sequência, Jackie convida Kaleb para "Purgatory for Rebellious Childrens", que como o nome sugere, usa uma abordagem mais irônica e detalhada das almas que estão presas no purgatório e o espiral na qual elas se encontram. O que faz total sentido com a faixa seguinte, "Old Habits (Die Hard)" que fala sobre a fraqueza do eu lírico de conseguir superar certos hábitos e sentir que está sempre voltando pro mesmo ponto. Tópico que aparece em uma outra óptica em "Love Can't Save Me Now", onde o eu lírico fala sobre como seu destino selado fez com que nem o amor pudesse salvar sua alma, já que ele não poderia impedir que ela se tornasse quem estava predestinada. A chegada do lead-single do projeto, "Mother's Mercy" traz consigo um lirismo que revela a vulnerabilidade de sua autora, em relação aos seus atos e a forma como eles poderiam ser vistos por quem importava para o eu lírico, como uma mãe, a qual ela espera que seja misericordiosa apesar de tudo. "Haunting Me" traz a composição mais honesta da parte da artista, que relata como ela deseja que as memórias de sua mãe continuem assombrando-a para que ela possa mante-lá real em sua vida. Em sequência, "Heaven for Tortured Minds" segue a linha de composição pessoal e revela um episódio que marcou sua infância. "Antidote" em parceria com Zane é um grande destaque positivo, a canção que serve como resposta para "Love Can't Save Me Now" demonstra uma lição bastante valiosa do eu lírico sobre entender que algumas experiências serão individuais e nem tudo precisa ser compartilhado com outro alguém, finalizando um ciclo e sendo um verdadeiro suspiro antes do encerramento formal do album, que fica por conta da reflexiva "Divine Comedy", diferente do que vimos até então, a canção é contada em terceira pessoa e cria uma atmosfera bastante convidativa, algo que poderia ter sido mais explorado ao longo das 14 faixas que completam o projeto. É notável a importância do album para sua autora, pois representa diferentes fases de sua vida pessoal e carreira, demonstrando a fragilidade que é tentar fazer com que ambos os lados coexistam de modo saudável, afim de ser uma ferramenta que possa ajudar a digerir certos aspectos da vida que pareciam inacabados ou não falados o suficiente. O visual é bastante chamativo e coeso, Jackie e Kaleb trabalham com bastante entrosamento nas páginas do encarte, onde encontramos belas fotografias e efeitos que criam um ambiente mais imersivo e realista. Parece que uma fase da vida da artista teve alguns de seus fantasmas esclarecidos, mesmo tendo faixas como "Haunting Me" e "Heaven for Tortured Minds" deixando um ar de que ainda tem muito mais para ser explorado sobre os tópicos ali apresentados.
TIME 90
Jackie firma de vez o seu retorno à cena musical com o seu mais novo disco, o apoteótico 'Rebel Rocker Evening'. O quinto álbum da artista aposta no rock e seus subgêneros – uma novidade para a carreira da artista que até então estava no dance. Composto inteiramente pela artista, com a produção assinada pela mesma ao lado de Kaleb Woodbane, o trabalho tem como uma nítida inspiração a 'Divina Comédia' de Dante Aligheri e é dividido em Inferno, Purgatório e Paraíso; sendo um captura dos estados mentais da artista durante o período que resultou na produção deste trabalho. O abre-alas deste lançamento se dá com a faixa 'Hell For Vultures' e se destaca por ser uma crítica voraz e brilhantemente construída à cultura da fama, superficialidade e autofagia social. Apostando num tom satírico, quase distópico. Ela é um comentário ácido, poético e contundente sobre o ciclo de poder, fama e desumanização. E já inicia o álbum lá em cima, sendo um retrato sombrio e elegante da sociedade contemporânea. 'Sacrifice In Plain Sight' é a segunda faixa e mantém o nível crítico e ácido da sua anterior sendo uma poderosa metáfora sobre o consumo público da dor alheia. Ao mostrar uma personagem que é manipulada, sacrificada e exposta sob os holofotes para uma plateia indiferente; quase que como em um espetáculo macabro. 'Fatal Feast', parceria com Alec Weaver, vem em sequência e dá continuidade a narrativa de 'Sacrifice [...]', aqui, a metáfora do banquete como sacrifício expõe os jogos de poder, manipulação e autofagia em ambientes que prometem glória, mas exigem sangue — seja ele literal, emocional ou simbólico. Os dois artistas se complementam muito bem numa faixa intensa, teatral, e sufocante, que, assim como a sua antecessora, combina horror gótico, terror psicológico, crítica social e empoderamento vingativo, encerrando o tal “jantar” com um gosto amargo de sobrevivência. "In Your Bones" chega como um retrato visceral da raiva transmutada em justiça pessoal, onde o eu lírico cansou de ser vitimado por um algoz e decidiu virar coveira de seu próprio malfeitor. A canção é carregada de fúria, sarcasmo e uma sensação constante de acerto de contas, como se cada verso escavasse um pouco mais fundo no túmulo de um traidor. 'Black Sheep' vem e é a segunda parceria do disco – aqui com o lusitano PRAYØR, sendo mais uma grandiosa canção até aqui. Numa letra que evoca a ideia de autodefesa, onde os artistas confrontam seus malfeitores de forma desaforada. Simplesmente genial. A faixa título e 'Purgatory for Rebellious Childrens', ao lado de Kaleb Woodbane, encerram a primeira metade do registro de formal magistral. Ambas as canções conseguem manter o nível lírico das suas antecessoras, além da estilística da escrita – são obras que constroem cenários góticos, sombrios, em nossas mentes e ambas portadoras de uma acidez e brutalidade dignas de chocar a todos. Esse vem ser o grande trunfo de Jackie aqui. O segundo arco do trabalho foi aberto pela colaboração com sr. Woodbane e as canções 'Old Habits (Die Hard)', 'Love Can't Save Me Now', 'Mother's Mercy' e 'Haunting Me' conseguem manter a qualidade e a linearidade. Agora a artista olha para si, é um bloco inteiro dedicado à autorreflexão. Jackie encara seus vícios – bem como as consequências deles, o desamor causado pelas turbulências de sua vida, o medo da desaprovação parental por causa de seus atos, o luto e o arrependimento. Aqui a artista muda a chave, deixando a acidez e o ritmo voraz das primeiras seis faixas e assume uma postura mais vulnerável, frágil. Um trio marca o desfecho deste lançamento e ele é composto por 'Heaven for Tortured Minds', 'Antidote' – ao lado do ZANE e 'Divine Comedy'. Jackie mantém a linha pessoal, falando sobre questões familiares e o não pertencimento a um ambiente familiar na óptica de uma pessoa adotada, sobre não se perder por causa de um amor – numa resposta direta a 'Love Can't Save Me Now', e encerra numa reflexão sobre tudo o que passou, como se fosse um narrador. O disco é denso, pesado, poderoso, forte e com uma lírica consolidada até demais, sendo uma excelente forma de nos relembrar o motivo da Jackie ter todo o praise que tem. O único ponto baixo aqui vem a ser o visual – que ora parece muito simples e artificial, ora não demonstra ter tido um certo empenho na edição. Por exemplo, na capa está evidente que não souberam editar o png da Jackie para inseri-la melhor no cenário. Em linhas gerais, 'Rebel Rocker Evening' é um clássico instantâneo do rock e que possui muitas camadas e letras inteligentes, violentas e poéticas; mas com um visual que não corresponde a sua magnitude lírica.

Spin 82
Após anos sem um álbum inédito na indústria, Jackie retorna com “Rebel Rocker Evening”, seu quinto projeto de estúdio e o primeiro dedicado quase integralmente a seu mergulho na rock music, gênero escolhido pela cantora para dar voz a seus sentimentos mais raivosos e conflitantes entre si após anos na música dance. O álbum parte justamente dessa premissa logo na faixa número 1, intitulada “Hell for Vultures”, que traz uma perspectiva apresentada como sábia do universo onde o eu lírico se encaixava em momentos anteriores de sua vida: um ambiente imerso em falsas intenções e atuações ainda mais falsas para se manter na cena desejada. “Sacrifice in Plain Sight” segue na pegada da faixa introdutória do álbum, que já trazia elementos de um “espetáculo” onde a alma do eu lírico era explorada como uma atração circense; aqui, Jackie interpreta com maestria os momentos antes de um “sacrifício” que pensa-se ser um artístico pelo puro entretenimento ao público do qual ela já está cansada. E se “Sacrifice” comenta sobre os preparativos para a atração na qual o eu lírico será o prato principal, “Fatal Feast”, faixa seguinte na tracklist e uma colaboração com Alec Weaver, detalha magistralmente o banquete propriamente dito. A música, anteriormente lançada como single e altamente premiada, brinca com o caráter predatório do conteúdo de seus versos e finaliza-se como uma demonstração do poderio lírico de seus autores. “Your Bones” explora a raiva e a indignação de Jackie diante de um indivíduo que não sente remorso em seu comportamento e jura retaliação contra os atos do mesmo; sua parte mais eletrizante se encontra na ponte, onde as juras de ódio tomam proporções maiores do que nos versos anteriores. “Black Sheep”, colaboração com PRAYØR, coloca os dois cantores em estado de conforto com o inferno que levantam sobre suas vidas, constatando que é “mais libertador” viver sendo taxados de nomes maldosos do que viverem mentiras que não condizem com seus anseios interiores. A faixa-título do álbum expande o conceito da faixa anterior ao trazer um nível de profundidade e de motivação para os atos da artista por trás da letra, sendo uma das composições mais interessantes no álbum justamente por apresentar uma complexidade ao que já havia sido apresentado e, assim, dar novas camadas à história. Em “Purgatory for Rebellious Children”, Jackie une forças a Kaleb Woodbane em uma música que, enfim, traz o sentimento de remorso naqueles que antes não o possuíam; todo o “inferno levantado” na primeira metade do álbum aqui se faz presente em forma de “pagamento” pelos pecados cometidos, sendo um passo necessário na narrativa e uma ótima collab nesse quesito. “Old Habits (Die Hard)” captura a fragilidade da vergonha retratada em momentos da canção anterior e transforma em uma letra mais íntima, mais próxima do coração do eu lírico, no modo como ele sente a dificuldade em se livrar de comportamentos que não enxerga mais como vantajosos para si. “Love Can’t Save Me Now” mantém o nível intimista; aqui, Jackie confere suas palavras diretamente a um amor perdido, que pode ser interpretado como uma outra pessoa ou até um amor próprio perdido durante o processo de rebeldia visto antes, o que é uma ótima chave para seu alcance universal. “Mother’s Mercy”, lançada como lead single do projeto e resgatada no álbum, une o dance e o rock como pontes das fases da carreira da cantora enquanto ela parece se render a um pedido de misericórdia por suas ações durante esse processo de transição, enquanto sua ponte retrata que ela ainda sente orgulho de ter se rebelado a favor próprio, em um ponto de vista interessantemente abordado. “Haunting Me” continua a premissa de “Mother’s Mercy” de um ponto de perspectiva mais sóbrio, colocando a culpa própria no centro da situação descrita, como se o eu lírico se culpasse mais pelo impacto de suas ações sobre uma pessoa querida do que pelos atos propriamente. “Heaven for Tortured Minds” inicia a tríade final do disco; Jackie começa contando sobre como se sentiu removida de um círculo que antes era familiar para seu bem-estar e prossegue a um rumo de aceitar que seu ambiente propício era, de fato, mais longe do que lhe era familiar do que ela mesma poderia imaginar, em uma das constatações mais belas a serem feitas. É uma das faixas de maior destaque do álbum, especialmente por conseguir unir todos os elementos que resumem a trajetória da narrativa apresentada, e tem potencial para futuro single. “Antidote” e “Divine Comedy”, as duas últimas faixas do álbum, acabam sendo também as mais fracas do projeto, encerrando-o em uma nota misteriosamente morna; “Antidote”, parceria com o cantor e compositor ZANE, possui uma estrutura que soa mais crua do que finalizada, onde as ideias de encerramento do ciclo iniciado em “Love Can’t Save Me Now” acabam por deixar mais incógnitas quanto aos elementos apresentados do que respostas conclusivas, enquanto “Divine Comedy”, faixa final de todo o disco, quebra com a pessoalidade e resgata a rebeldia do começo do álbum, o que poderia trazer uma ideia de ciclo repetido na narrativa, mas acaba por despersonificar o que Jackie havia pessoalizado em torno das faixas cantadas anteriormente. Visualmente, o álbum, assinado pela própria Jackie em parceria com Kaleb Woodbane, impressiona pelo tom das fotografias e pela tipografia bem casada com as ideias que o álbum traz por si só, sendo um acerto dos nomes envolvidos não só por isso como também pelo seu realismo nos cenários e na construção de design. “Rebel Rocker Evening” soa como um grito de liberdade artística por parte de Jackie, e não é por menos: o tema é retratado constantemente ao longo das faixas, beirando o repetitivo em sua segunda metade e perdendo força no final, mas sem apagar o brilho de momentos onde Jackie reporta suas camadas emocionais com mais maestria, como na parte média do disco. É definitivamente um projeto maduro e que reflete a visão artística bem construída de Jackie como rockstar nos últimos anos.